Boogarins: Rock & Roll de Outra Época

Goianos mostraram ao público que música ainda pode se resumir a quatro instrumentos, efeitos e muita psicodelia

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Fotos: Adriano Vizoni

O convite ao show do quarteto Boogarins era propício. Ao invés de esperar o almoço esquentar em casa, era melhor chegar cedo no Lollapalooza Brasil 2015 e ouvir o Rock Psicodélico dos goianos abrindo a programação oficial do Palco Axe. No entanto, logo de cara já dava pra ver que as coisas estavam estranhas. Ninguém tocando a uma hora da tarde (seu horário programado) e tampouco anúncios formais do evento. Ah, “Marina and the Diamonds cancelou”, aparecia nas redes sociais, “e o palco foi atrasado”.

Era possível sentir que o público começava a se dispersar do palco em direção à apresentaçao de Banda do Mar, agora, um competidor de horário e som. Quem ficou, no entanto, não se arrependeu de conhecer o trabalho de Benke, Dinho, Raphael e Ynaiã, ao vivo. Já os vi algumas vezes, em diferentes lugares e situações, e uma coisa é clara: independente do tamanho do evento ou da situação, o grupo nunca se intimida, sempre se adapta e propaga seus acordes psicodélicos como se estivesse no quintal de casa. Transita entre suas músicas mais famosas e as transforma em jam, em improviso. Talvez não tenha sido a melhor apresentação que eu vi deles – foi uma mera degustação do potencial do grupo -, mas foi o bastante para deixar os marujos de primeira viagem impressionados.

Faixas como Erre e Infinitu, pareciam salivar no canto do público que chegava e se acomodava aos poucos. Todos pareciam saber a letra ou, ao menos, quererem entendê-la. Ao mesmo tempo, tentavam descobrir de onde os timbres e a melodia psicodélicos poderiam vir. Como aquela viagem sonora era construída? Pode surpreender muitos, mas aquilo é Rock & Roll como era feito antigamente em um quarteto básico – duas guitarras, baixo e bateria. Nada de sintetizador. Os efeitos, a textura e a profundidade que a banda ganham ao vivo vem simplesmente do entendimento de seus membros de seus pedais de delay, phasers, reverbs e rudimentos de percussão, os quais unidos dão uma unidade incrível aos goianos.

Enquanto seus grandes sucessos como Doce e Lucifernandis eram entoados pelo público presente, ambas de difícil realização em relação a sua popularidade dado o tamanho da euforia de seus fãs, as faixas novas causavam deleite. Avalanche, que nem é tão nova assim e vem quase sendo chamada por aí de Eles Não Deixam Ver o Sol, precisa ser lançada logo – ela é lisérgica o suficiente para te fazer viajar como o grupo jamais fez, ao mesmo tempo em que demonstra Dinho cantando como nunca. Uma outra, sem título, também abriria o show, revelando que seu segundo disco é de longe um dos lançamentos mais interessantes que teremos nesse ano.

Nos bastidores, St. Vincent dizia ter ficado impressionada com o som dos goianos. Não é à toa, pois, em tempos de vacas cada vez mais magras de Rock & Roll, Boogarins parece recorrer ao passado para fazer psicodelia de verdade, sem intervenções, computadores ou mega-produções. O som que sai do palco é puramente a expressão de músicos inspirados em fazer música, como antigamente, com temperos e melodias brasileiras – extremamente admiradas pelos gringos – e sonoridades e inspirações na psicodelia estrangeira (Tame Impala talvez seja a maior comparação). A combinação é verdadeiramente irrestível para qualquer um que espera que a música feita ao vivo em um festival possa remeter aos tempos romantizados dos grandes eventos musicais de outras décadas. E isso os goianos sabem fazer como poucos – não só no Brasil, como no mundo.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.