Distorção, Melodia e Melancolia no Segundo Dia de Primavera Sound

Boas atrações conseguiram superar o absurdo de problemas técnicos no som

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O segundo dia oficial do Primavera Sound 2014 teve novamente a chuva em um papel coadjuvante e um lineup com uma ênfase diferente, voltando a nos mostrar a importância que experiência é sempre muito importante em eventos desta magnitude. Logo nos primeiros momentos da manhã da sexta-feira, 30 de Maio, uma tempestade que alagou algumas vias em Barcelona, surgia como um inimigo ou componente interessante para o prosseguimento do festival. Naturalmente, se o tempo continuasse tão hostil como estava, levaria as pessoas a chegarem mais tarde, se arriscando somente quando tivessem certeza de que a tormenta havia passado.

No entanto, uma hora depois da abertura das portas do festival, as gotas já não caíam mais e um Sol surgia tímido no horizonte, em meio a nuvens pretas e um ensaio de arco-de-íris. O dia não estava tão explosivo quanto o anterior, pelo menos em termos de grandes headliners compondo os onze palcos dos eventos. Se no dia anterior as coisas haviam sido quase “injustas” com alguns dos maiores nomes das música atual, a sexta-feira tinha uma programação com alguns grupos do passado e mais experientes, como Slowdive e The National, mas com espaço para os mais novos, como War on Drugs e Darkside, mostrarem o seu valor. Entretanto, a imensidão de grupos distribuídos pelo Parc Del Fòrum mostrava que o dia seria mais uma vez corrido.

Speedy Ortiz

O público encapuzado já podia notar logo no começo do show que a banda norte-americana Speedy Ortiz acrescentava dois elementos muito particulares na primeira metade do festival – aquela que acontece antes de sua transformação em uma grande balada com os melhores nomes na música Eletrônica: Distorção e mulheres no comando. Seu Rock Alternativo enraizado nos EUA dos anos 1990, com nomes como Pixies e Breeders como referências, combinou ambos os elementos de forma muito fluída. O aspecto sujo que toma conta de seus discos, com guitarras sobrepondo uma voz feminina bastante serena, foi muito bem visto por aqueles que escolhiam este palco Pitchfork ao invés do Heinenken, com outro grupo de mulheres se apresentando, Haim (que cobriremos no Primavera Sound do Porto). Seu som ao vivo mostra outras texturas e dá mais relevância ao que seu melhor: ritmos pesados e angulares com uma melodia mais Pop sempre distorcida, algo bastante diferente na cena atual.

Dr. John and the Nite Rippers

Dr. John é um mito com mais de 50 anos de carreira. Contemporâneo e companheiro de turnês de nomes como Bob Dylan, The Band e Neil Young, o cantor é a prova viva de uma época que possui cada vez menos artistas vivos para contar história, os anos 1960. Com a banda de apoio Nite Rippers, o pianista de cabelos grisalhos e longos, mas estiloso com seu visual de New Orleans, pôde ter o apoio necessário para recriar alguns clássicos de sua extensa e variada discografia que parte desde os Blues até o Funk. Tranquilo e no melhor estilo jazzístico de se criar música, livre e swingada, o concerto se transformou em um verdadeiro baile para o público que começava a chegar no festival. O pôr-do-Sol e a escolha de um palco em formato de auditório deram um toque especial para o público (naturalmente mais velho, mas com alguns olhares mais jovens atentos) dançar. A trombonista de sua banda roubou a cena ao abusar de efeitos de som em seu instrumento, deixando-o viajado e fazendo em alguns momentos o papel de guitarra com incríveis solos funkeados. Clássicos como Sweet Home New Orleans e Such a Night foram tocados e todos se sentiram privilegiados ao ver uma das figuras mais emblemáticas da música mostrar o seu amor pelo seu ofício e se divertir como se fosse o seu primeiro concerto. Ao sair todo sorridente do palco com sua bengala, Dr.John certamente ganhou quem não o conhecia ainda.

Slowdive e Sharon Van Etten

A volta do grupo inglês de Shoegaze Slowdive após mais de 20 anos de hiato era um dos eventos mais comentados de todo o Primavera Sound. Será que sua música ainda é relevante para a música atual ou seria somente uma turnê de retorno para ganhar um dinheiro? Essas questões estavam na minha cabeça antes do concerto. No entanto, o show de uns dos discos mais elogiados por nós esta semana, Are We There? de Sharon Van Etten disputava o mesmo espaço de tempo ao começar 20 minutos depois em um palco bastante longe. Grandes festivais te fazem pensar com muito carinho o que é mais relevante para você, pois é impossível acompanhar tudo, sendo possível somente ver um pouco de cada show. Não tive dúvidas ao escolher ver pelo menos o começo de Slowdive, dado que poderemos cobri-lo totalmente em Porto e a cantora não se apresentará por lá. Posso dizer, no entanto, em poucas palavras: que espetáculo que é ver os britânicos ao vivo! Todos estavam hipnotizados com o ritmo diferente que eles propõem ao Shoegaze, enquanto a constante troca de vocais entre Neil Halstead e a linda Rachel Goswell se mostra fluída no meio de uma distorção menos aparente que em nomes como My Bloody Valentine, por exemplo. Apesar de sua curta duração, pelo menos pra mim, foi certamente um dos melhores momentos de todo festival.

Angustiado por estar perdendo o resto do concerto, mas certo que a beleza do último disco da cantora seria uma experiência diferente recompensadora, fui correndo para o Palco ATP no lado oposto em que eu estava. O Folk delicado da cantora se mostrou ainda mais sincero ao vivo ao mostrá-la extremamente solta e falante com o público. Antes de cada faixa, ela contava um pouco a história por trás de sua composições, como Break You (“não viaje com garrafas, elas são perigosas”), ou simplesmente interagia com todos ao perguntar como se dizia em espanhol Save Yourself uma de suas canções mais bonitas. Sem muito sucesso, ainda diria entusiamada: “Então até o final da noite eu aprenderei”. A verdade é que a sua simpatia cativava as pessoas que passavam pelo palco muitas vezes para ir para outro lado. Totalmente oposto ao outro palco em que as distorções dominavam, aqui podemos ver uma cantora quase nua em sua exposição de sentimentos em melodias serenas que são muito bem reproduzidas ao vivo e mostra também o domínio de suas ideias ao ficar sozinha em algumas faixas, o que é com certeza ainda mais emocionante do que em disco. A disputa por melodias e distorção seria internalizada no esperado concerto de War on Drugs. “Vejo vocês por lá? Não deixe de vê-los”, disse Sharon antes de perceber que qualquer convite feito àquela plateia seria aceito após um concerto tão calmo e melódico.

War on Drugs

Um dos shows mais esperados naquela noite por nós, War on Drugs, dono de um dos discos mais escutados em nossa redação em 2014, Lost in the Dream, teve alguns problemas que felizmente não estragaram a sua apresentação. Um atraso de 25 minutos devido à falta de direção na mesa de som e instrumentos sem o sinal de som retornado ao palco, e que não conseguiam ser ligados por algum motivo muito estranho, quase fizeram o líder do projeto, Adam Granduciel, ir às vias de fato com o programador da mesa de som. O público impaciente se dispersava, mas mesmo assim tínhamos grande parte dos presentes ainda entusiasmados com um show que parecia que seria cancelado, devido ao claro nervosismo de todos os músicos no palco. Já aqueles que ficaram, posso dizer que puderam ver o melhor concerto daquela noite no Primavera Sound ao mostrar que ao vivo, toda a produção pessoal de Adam ganha mais impacto, vibração e intensidade com uma banda de apoio bastante consistente, com inclusive um soprista tocando todos os instrumentos presentes em suas gravações. O ex-companheiro de Kurt Vile mostrou o porquê de cada um ter seguido caminhos opostos – enquanto o primeiro está fundado nas guitarras mais secas e quase sem efeitos, mas sempre com a cadência de uma voz Folk, War on Drugs é muito mais megalomaníaco e etéreo, porém igualmente norte-americano. A música Country que parte do ritmo mais rápido de seu som se mistura a diversas texturas viajantes que, quando sobrepostas sobre a voz de Adam (que, sim, se parece com Bob Dylan), emocionou os poucos presentes naquela noite do Primavera Sound. Híbrido entre toda a distorção e a melodia que se faziam presentes até aquele momento no dia festival, o grupo não deixou de tocar grandes músicas como Under Pressure, Baby Missiles, Comin’ Through e Red Eyes, comendo o horário do outro show que aconteceria no palco e, consequentemente, atrasaria o restante das apresentações por ali .Uma falha do evento, mas que acabou deixando o músico raivoso e enérgico em uma apresentação inesquecível.

The National e Black Drawing Chalks

Enquanto The National se apresentava no palco, um show que será coberto integralmente em Porto devido às expectativas ao redor do seu concerto, e seguia um caminho natural para a bela e intensa melancolia que os norte-americanos propõem, os goianos Black Drawing Chalks faziam a sua maior apresentação de todo festival. Ao se apresentar no portuário palco Adidas Originals, às margens do mar, o grupo trouxe grande parte do público brasileiro roqueiro presente no festival para prestigiar o show da banda. Enérgico e nervoso, mais uma vez pudermos ter a chance de ver um dos nomes mais relevantes do país em terras estrangeiras com seu tempo de estrada e afinco a sua identidade. Podemos já caracterizar o som do grupo como um híbrido de Hardcore com Stoner Rock, mas extremamente característico. Logo, quando ouvimos, já sabemos que se trata de Black Drawing Chalks – e identidade é fundamental para se destacar no mundo da música.

Darkside

Em seguida, o início da madrugada levaria novamente o festival a mudar sua cara aos poucos transformando em um evento de música Eletrônica, com seus palcos começando a iniciar suas atrações mais dançantes e concentradas nas batidas. No entanto, diferentemente da noite anterior, pudermos ver diversos sets de live muito interessantes de projetos fundamentos na produção sonora computadorizada, e o de Nicolas Jaar e Dave Harrington começava, logo de cara, a elevar o nível das apresentações. Darkside pode ser visto à primeira vista como banal: um computador com batidas e uma guitarra. Contudo, a forma como o duo se apresenta e um disco, Psychic, entre os mais elogiados no ano passado na mídia fariam com que o público se aglomerasse no palco Ray Ban para vê-los. Como se espera de uma apresentação ao vivo, as músicas devem ser mostradas de uma forma diferente para que não se mostrem tão mecânicas como em disco. Mas, se tratava de Jaar, um dos mais criativos produtores de música Eletrônica, podemos dizer que o resultado seria, no mínimo, interessante – algo que ocorreu com as constantes reconstruções que suas faixas ganham ao vivo, como em Paper Trails, Freak, Go Go Home e The Only Shrine I’ve Seen O uso da guitarra de Harrington, auxilia o grupo a criar transições perfeitas com toques de Blues entre cada uma das poucas músicas de seu único disco mas que ganham novas texturas e efeitos, todos colocados milimetricamente por Nicolas e seu computador provido pelo software Ableton. Sintetizadores e sua voz grossa funcionam como o grave que pulsa a cada momento com um público extremamente eufórico e surpreendido pela capacidade de somente duas pessoas no palco criarem tantos sons ao mesmo tempo. O show de Darkside foi uma clara exemplificação de que as novas fronteiras da música estão para serem melhor desenvolvidas no campo eletrônico, local em que ideias conseguem se fundir de formas inéditas. Mais do que um simples esforço de produção, o concerto mostrou que os músicos envolvidos conseguem levar o seu projeto para outro patamar ao vivo.

SBTKRT

Aaron Jerome, o produtor e músico por trás de uma máscara tribal usada em todas as suas apresentações, é um dos atos mais interessantes deste novo eletrônico híbrido que surge pelo mundo afora. O britânico com gostos concentrados em música étnica SBTKRT soube lidar muito bem com os problemas técnicos que mais uma vez afetaram uma atração naquele dia de festival com diversas paralizações para consertar o som. Com um set composto por diversos sintetizadores, bateria eletrônica e uma música de apoio, Aaron passou por simples improvisações até os maiores clássicos de seu até então único álbum,SBTKRT (fala-se “subtract”), como Wildfire. No entanto, nesse trabalho há diversas participações especiais, como a de Little Dragoon na faixa acima e do ótimo cantor de R&B Sampha, presente nesta apresentação. Pode-se dizer quem acima das batidas, a participação do músico trouxe humanidade a um Eletrônico que busca suas raízes nas mais variadas etnias, como africana e brasileira, com samples muito percussivos. Por isso que, quando Adam anunciou a entrada do cantor no palco, o público foi ao delírio e pôde ver a sua bela voz cantar faixas como Trials of the Past, Never Never e Hold On em mais uma apresentação distinta de música Eletrônica.

Jagwar Ma e Factory Floor

Disputando o mesmo horário (3 da manhã), estavam dois grupos totalmente distintos entre si em sua sonoridade, origem e influência. Enquanto o australiano Jagwar Ma se vê como embrião da Psicodelia e do Acid House eternizado em Primal Scream, Factory Floor vê a sua criação, pelo menos em disco, de uma forma muito mais mecanizada e robótica, como Kraftwerk, por exemplo. Logo, cada um dos dois atrairia púbicos distintos ao seus palcos. O primeiro realizou a sua estreia em Barcelona para uma multidão que chegava facilmente na casa dos cinco mil, mostrando ao vivo a composição de seu som: um guitarrista, um baixista e um DJ jogando as batidas. Se em seu elogiado disco Howlin tínhamos a impressão de que estávamos diante de um filhote do Screamedelica, in loco (e no meio de um público que claramente estava esperando muita dança hipnotizante no palco Ray Ban) pudemos constatar que eles fizeram valer a pena a expectativa do público para uma apresentação enérgica e, acima de tudo, lisérgica. Ao ver metade do concerto, pude ir ao palco Pitchfork que, acabou atrasando todos os shows que aconteceriam por lá. Ao vivo, Factory Floor é muito mais interessante que em seu ordenado disco de estreia de mesmo nome. Ao construir a suas batidas de forma progressiva, como LCD Soundsystem e Hot Chip fazem, mas em um formato industrial, o grupo experimentou criar sua música de diversas formas com uma bateria eletrônica, guitarra e baixos sintetizados. Bem mais livre e robusto, como se fizesse um jazz experimental e ritmado, os britânicos colocaram todos para dançar as suas batidas mecânicas, mas quebradas quando entoadas do palco.

O segundo dia do Primavera Sound mostrou alguns problemas técnicos que não poderiam acontecer em um evento deste porte. Com tantas passagens de som sendo feitas anteriormente, ocasionar atrasos por problemas sonoros na ligação de aparelhos é, no mínimo, absurdo. Porém, tais mazelas não atrapalharam mais um dia do evento que teve algumas bandas deixadas de lado ontem para que pudéssemos cobrir tudo o que de mais interessante está se passando na cena atual da música. Podemos constatar que o Shoegaze está de volta com todo gás e que as mulheres roubaram a cena no evento. Também vimos que as fronterias sonoras da música eletrônica não existem quando a criatividade sobrepõe a falta de uma banda e saber trazer estes elementos ao vivo deixa o artista muito mais interessante.

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.