Jack White: “Headliner” em Letra Maiúscula

Guitarrista provou-se não só o grande nome do evento, mas também um dos músicos mais importantes de sua geração

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Jack White é o indie rocker que se tornou rockstar. Quem poderia imaginar, no início da popularização do Indie Rock como o conhecemos, que o guitarrista e vocalista do duo The White Stripes pudesse se tornar uma verdadeira estrela, tomando e enlouquecendo multidões ao mesmo tempo em que é um dos principais nomes por trás da retomada do vinil? Mas o guitarrista se tornou ainda mais grandioso e permanece como o músico mais produtivo e workaholic de sua geração. A apresentação do sábado do Lollapalooza Brasil 2015, encerrando o palco Skol, provou que estávamos diante do verdadeiro headliner do evento.

Se alguém duvidava da importância e da capacidade do músico em conseguir liderar um festival, se enganou logo de cara. Jack White não é só o nome principal no Lollapalooza, mas também no Coachella, festival norte-americano que parece ser a “referência de grandes eventos musicais do mundo”, assim como diversos outros. Logo, sabíamos que podíamos nos surpreender com sua apresentação, mas não da forma impressionante como foi. Engana-se também quem pensa que suas músicas do antigo grupo são simples versões que vão te remeter aos tempos em que você ouvia CDs e baixava esporadicamente música na Internet. White distorce-as, inova, quebra e arremessa suas expectativas para alto, assim como som estridente que sai de sua guitarra. É isso que faz cada uma de suas apresentações tão encantadoras e especiais: realmente não sabemos o que podemos esperar.

No palco, uma tremenda banda parecia ser o encontro ao ideal que o guitarrista tinha quando começou a fazer música: um baterista que permite explorar outras sonoridades, uma violinista que se revela uma grande vocalista e uma retaguarda composta por um baixista, um pianista e um “senhor de efeitos” que se divide entre slides de guitarra e solos de teremim. O som que sai de tal combinação não poderia ser outro senão um Rock pesado e obscuro. Não é à toa que a escolha da paleta de cores da carreira solo de Jack White é o azul e o preto – misturam melancolia, tristeza e cólera em iguais tons.

White não larga a guitarra em momento algum: não se permite encerrar uma música sem um solo, sem uma jam session ou sem elevar o volume de sua apresentação absurdamente. Mentira – em alguns instantes, ele chega pegar o violão para tocar suas baladas de The White Stripes, como Hotel Yorba ou We’re Going To Be Friends – alguns dos poucos momentos de alívio e calma de seu show. Em outros casos, ele anda de um lado a outro como um louco, toca no piano Dead Leaves and The Dirty Ground à sua maneira enquanto leva todos a pular no maior hit de uma de suas muitas bandas, Steady As She Goes (The Racounters).

No entanto, é em suas novas criações e em como o seu cérebro anda funcionando recentemente que as coisas fazem sentido e se encaixam. Faixas de seu último trabalho, Lazaretto (como a música título, Three Women, High Ball Stepper e That Black Bat Licorice) revelam um tipo de Rock & Roll que é a evolução natural do que ele já criou em vida e que não poderia sair de outra pessoa senão de White e de sua impressionante banda. Em outros momentos como Weep Themselves To Sleep, Would You Fight For My Love, Love Interruption e Missing Pieces (as duas últimas de Blunderbuss), mostram um gosto pela música folclórica norte-americana, principamente o Blues e o Country, que o fazem fugir do próprio estigma de roqueiro para se tornar um músico mais plural e ligado a outros estilos.

E nesta transição entre momentos pesadíssimos, estridentes e outros mais calmos e folclóricos que o músico conduziu a apresentação a sua maneira, sempre se permitindo entre uma música e outra pentear o seu cabelo. Se o músico tivesse vivido na década de 1950 e 1960, certamente estaria ao lado de nomes como Jerry Lee Lewis e Johnny Cash, artistas que trouxeram a partir de suas raízes novas versões do que conhecemos como Rock & Roll. Se alguém esperava versões ao pé da letra de Black Math ou de I’m Slowly Turning Into You, já pode considerá-las ao vivo como suas versões prediletas, tamanha a intensidade que elas ganharam na apresentação do músico.

Sua atitude hiperativa, que o levou a tocar teremim (aliás, um dos grandes pontos altos da noite) ou piano como uma insandencido, só demonstrou ao vivo o que já sabíamos: Jack White é o nome mais incansável do Rock & Roll atual. Desde The White Stripes, ele se envolveu em diferentes projetos – The Racounters e Dead Weather, para citar alguns -, esteve à frente de sua gravadora e chegou à sua carreira solo sem soar comum. No auge dos seus 39 anos, ele parece não querer parar e sua apresentação foi a constatação de que ele é também um tremendo músico, um guitarrista característico e uma pessoa com uma visão particular da música. O encerramento com Seven Nation Army só provou como o nicho de Indie Rock se expandiu quando esse hit alcançou as paradas de sucesso: de fãs de música Eletrônica e torcidas de futebol a rappers, todo mundo sabe cantar e dançar seu maior sucesso. Se tudo isso não é necessário para ser um headliner e ainda realizar o melhor show da noite, não sei mais o que esperar.

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ARTISTA: Jack White
MARCADORES: Cobertura

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.