Resenhas

Burial – Antidawn EP

Em grande demonstração da anti-ambient music, figura seminal da música eletrônica contemporânea cria atmosfera densa entrecortada por momentos de silêncio

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Ano: 2022
Selo: Hyperdub
# Faixas: 5
Estilos: Ambient Music, Downtempo
Duração: 43'
Produção: Burial

O mistério é a matéria-prima de Burial. Não apenas nos detalhes de sua vida privada, cada vez mais escassos e difíceis de serem compilados em uma biografia clara, mas também em sua sonoridade, na qual se expressa esta grande imprecisão. Estamos falando de um produtor que conquistou renome mundial como um dos mais influentes a partir de uma estética que tem em silêncios e supressões a linguagem de sua arte. Seu trabalho é mutante pelos vários EPs ao longo das décadsa de 2000 e 2010, mas é quase um consenso que os dois discos de estúdio são marcos decisivos na configuração da música eletrônica contemporâne – principalmente no que diz respeito à cultura de colagens de samples e a ausência de estruturas rígidas como norteadores da composição.

Os discos em questão são Burial (2006) e Untrue (2007), trabalhos quase complementares e que evocam uma sensação distópica da modernidade, sem revelar muito. Estes dois trabalhos são essencias para entender o mundo de Burial ao longo de sua discografia. Há sempre uma sensação de estarmos imersos em uma grande escuridão e, aos poucos, nos é revelados fragmentos deste universo – seja por meio de samples vocais de R&B dos anos 1990, sintetizadores longos e reverberados ou batidas descompassadas e quebradiças. O mistério nunca é revelado totalmente e, portanto, sempre ficamos ávidos por novas pistas do trabalho completo.

Assim, insistindo na dinâmica de revelar aos poucos parte deste universo, William Bevan, nome por trás do projeto, traz mais um curto, porém profundo capítulo revelador de sua obra. Antidawn EP é um novo passo que insiste na tradição consolidada de Burial, mas também procura enxergar novas formas de aplicá-la na prática. Em quatro faixas, o produtor inglês segue à risca a ideia de fragmentação – não apenas na própria estética sonora do trabalho, mas nos silêncios que insere cirurgicamente durante cada um destes momentos. Em cada uma das faixas (que vão de 6 a 11 minutos de duração), William traz uma espécie de separação feita por períodos de silêncio, como se fossem excertos  de diferentes áudios. Contrário a seus registros passados, em que as músicas funcionavam como grandes massas sonoras, aqui diferentes trechos estão dispostos sobre o mesmo intervalo de tempo. O silêncio, portanto, faz parte das composições deste novo registro não como mero instrumento de separação, mas como recurso narrativo que intensifica ainda mais o mistério fundamental da obra de Burial.

Há cinco momentos distintos e complexos no EP. “Strange Neighbourhood”, como o título sugere, é a faixa que apresenta o cenário inicial (ou partes dele). Cada segmento possui uma aura fantasmagórica, como se mostrasse para nós diferentes focos e cenas – é difícil não utilizar na linguagem cinematográfica para falar de Burial. “Antidawn” é um suco concentrado de Ambient Music, mas contrário ao estereótipo do gênero, os espaços não são totalmente preenchidos por pads e texturas amplas, deixando um espaço para o ouvinte respirar e causando, ironicamente, o efeito contrário, nos deixando alerta e tensos pelo que pode vir depois dos grandes silêncios. “Shadow Paradise” traz um destaque para um órgão cerimonial e samples vocais que são editados e harmonizados de tal maneira que dão a impressão de nos apresentar um culto – aquela vizinhança estranha introduzida na primeira faixa ganha um aspecto de filme de terror aos poucos, algo que é sustentado também pela capa. “New Love” está dentro do espectro Ambient e, apesar de trazer uma sensação de pouca clareza dos acordes tocados, sugere ao ouvinte algo como um New Age macabra. Por fim, em “Upstairs Flat”, menor faixa do trabalho, Burial é mais violento nas intervenções de seus samples e o que antes era apenas uma mera sugestão de um cenário de suspense/terror, agora se confirma em meio a uma imersão fúnebre, intensa e envolvente.

Antidawn EP traz todas as características que fizeram de Burial um nome tão relevante dentro da música eletrônica. Ao mesmo tempo, ele propõe um exercício para o ouvinte que tente categorizar a sonoridade aqui disposta. Termos como anti-ambient, new age macabro e horror drone são algumas das sugestões possíveis. Ao mesmo tempo, tentar definir o som pode ser perda de tempo, pois é justamente o mistério sua principal ferramenta – e que deve ser conservada. O enigma de Burial parece cada vez mais longe de uma solução – e isso é formidável.

(Antidawn EP em uma faixa: “Shadow Paradise”)

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ARTISTA: Burial

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.