Resenhas

Afel Bocoum – Lindé

Novo álbum traz o célebre guitarrista do Mali – discípulo de Ali Farka Touré – como um mestre que guia todos os elementos sonoros a seu redor

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Ano: 2020
Selo: World Circuit/BMG
# Faixas: 11
Estilos: Folk, Desert Blues
Duração: 45'
Produção: Damon Albarn e Nick Gold

Afel Bocoum é parte de uma grande tradição de guitarristas africanos. Essa afirmação tem uma implicação conceitual, que situa o músico do Mali dentro de um senso maior, a música contemporânea do oeste da África, ao mesmo tempo que permite uma aplicação mais direta para explicarmos a história de Afel. Afinal, ele foi discípulo de Ali Farka Touré, um dos maiores nomes do som que o continente exportou na segunda metade do século 20. Ou seja, Afel é um dos principais representantes do legado que lhe foi passado, dentro de um meio fonográfico que olha para sua arte com exotismo e a classifica grosseiramente como World Music.

É positivo ter isso em mente durante a audição de Lindé, seu quarto álbum solo. A obra transita pelas diversas sonoridades – entre escolhas de timbres, acordes cantados e polirritmias – que nossos ouvidos ocidentais logo reconhecem como referencialmente da África, uma soma de elementos que até os mais desatentos identificam como daquele continente. Não por acaso, logo vemos semelhanças com uma nova música brasileira que exala nossa ancestralidade de raiz africana, como as guitarras de BaianaSystem e ÀTTØØXXÁ, familiaridade que torna o disco ainda mais agradável para quem acompanha o cenário contemporâneo.

Parte dessa comparação vem também da produção, que prioriza uma estética dos nossos dias no tratamento do áudio sem descaracterizar os sons, cortesia de Damon Albarn (sim, o próprio, de Blur e Gorillaz, em pessoa) e Nick Gold (do selo World Circuit) na produção executiva. Saber que o disco foi feito com ajuda de mãos estrangeiras também parece ser um detalhe relevante na experiência de ouvir Lindé. A maneira com que os sons são apresentados em cada faixa revela um grande deslumbramento com aquela musicalidade, um olhar de quem está de fora daquela cultura e se encanta com o que ela oferece.

Isso está na sonoridade “tribal” de “Fari Njungu”, com suas muitas repetições e cantos que respondem a uma voz principal, ou no aspecto ensolarado da reggaeira “Bombolo Liilo”, por exemplo. O som que fica na memória, no entanto, é o de um Folk guiado pela guitarra, aquele com o qual somos presenteados desde a primeira faixa, “Penda Djiga”, e que ganha ainda mais presença nas últimas músicas. No centro do disco, “Avion” faz as vezes de unir muitas dessas qualidades e se apresenta como uma música complexa e densa, que passa por diversos momentos e humores ao longo de quase seis minutos.

No centro de todas elas, está a figura de Afel Bocoum. Cercado por tantos elementos sonoros, ele é quase um mestre de cerimônias que ora puxa o coro, ora guia toda a banda com sua guitarra. Escutá-lo, no alto de toda sua maestria, com ouvidos brasileiros, nos ajuda a entender o lugar que o artista ocupa no legado musical do qual faz parte, e ainda explicita a noção que já tínhamos de como conhecemos pouco a música do continente que nos deu grande parte da nossa cultura.

(Lindé em uma faixa: “Avion”)

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ARTISTA: Afel Bocoum

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.