Resenhas

Agnes – Magic Still Exists

Após quase uma década de hiato, cantora e compositora sueca apresenta seu trabalho definitivo em narrativa pessoal embalada pela Disco Music

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Ano: 2021
Selo: Senga/Universal Music
# Faixas: 11
Estilos: Pop, Disco, House
Duração: 35'
Produção: Vargas & Lagola

Com o crescente aumento da velocidade de informação, as pessoas têm ficado cada vez mais impacientes e isso, de uma forma ou outra, reflete na percepção do tempo. Tanto que, de uns tempos para cá, a noção de comeback é ressignificada à luz da impaciência. Se algum artista não lança algo há três anos, já é possível ver veículos anunciando um retorno após uma “longa” espera. O comeback precoce remete à velocidade que o consumo de música tomou – cada vez mais pautado em manter artistas atuais com surras constantes de singles. Se alguém demora mais de dois anos para lançar algo, já se corre o risco de ser esquecido pela indústria.

Entretanto, para alguns artistas, as longas pausas entre os discos não dizem respeito apenas à indústria musical, mas a razões pessoais e íntimas que certamente não respeitam o cronograma insano das grandes gravadoras. Um tempo para repensar direcionamentos e propósitos. Para a cantora e compositora sueca Agnes, foi preciso muito mais do que alguns anos para repensar todas estas questões, afinal, quase uma década separa seu último disco do seu retorno aos estúdios.

Agnes começou sua carreira com 16 anos, no programa Idols. A partir disso, seu nome se popularizou pelo continente europeu, rendendo até uma aparição no famoso Eurovision. Discos como Dance Love Pop (2009) e Veritas (2012) deixaram claro que ela era um nome destinado a carregar o Pop como sua essência artística. Musicalmente, sua sonoridade poderia ser definida como aquele Pop de transição dos 2000 para os 2010, trazendo algo de R&B, EDM e baladas românticas. Agnes parece ter sido uma esponja cultural de seu tempo, absorvendo e remanejando referências do Pop mundial em prol de suas verdades. No entanto, após Veritas, a cantora se afastou dos palcos e estúdios, aparecendo uma vez ou outra em colaborações, mas sem apresentar nenhum material novo ou autoral. Foram precisos quase 10 anos para que Agnes pudesse trazer algo de volta e, sem dúvida, o tempo foi um elemento fundamental para um exemplar e verdadeiro comeback.

Seu novo disco parece ser uma afirmação de que, depois de tanto tempo, ainda existe mágica em sua música. Não à toa, Magic Still Exists, tem este nome. Em entrevista para Sydney Unleashed, Agnes conta que estes quase 10 anos de hiato foram essenciais para um crescimento pessoal. Por ter começado muito nova na carreira musical, ela sente que nunca teve tempo de pensar sobre suas histórias e narrativas. O ritmo ensandecido de Idols e Eurovision acabou por refletir nas escolhas estéticas de seus discos passados – deixando a narrativa pessoal um tanto de lado. Portanto, ao retornar com um disco como este, Agnes coloca em evidência suas reflexões e escolhas.

Apesar do Disco Revival ter sido norteador sonoro do trabalho, ele não aparece aqui como uma exigência da indústria, mas como integrante da história pessoal de Agnes. Influenciada por artistas como Diana Ross, Kylie Minogue e Róisín Murphy, o trabalho encontra nos bailes antigos as texturas precisas para entregar o discurso da cantora. Uma história que é contada em minúcias e com muito apreço pelo ritmo e a cadência, demonstrada pela presença de quatro interlúdios. Ou seja, não se trata apenas de fazer hits para as pistas de dança, mas de unir tudo sob uma perspectiva única. Uma perspectiva de precisou de nove anos de amadurecimento para vir ao mundo.

O disco começa com “Spiritual Awakening”, um interlúdio decisivo para a imersão do ouvinte na obra, funcionando literalmente como um despertar espiritual para dentro de sua história. Na primeira faixa completa, “XX”, Agnes nos emociona com as batidas Disco e o potente vocoder que torna as palavras ainda mais significativas e poderosas: “Eu estive esperando por isso a minha vida inteira”. Em seguida, o dançante single “24 Hours” traz aquela ideia de como o tempo pode mudar de percepção dependendo das intenções de quem o sente. Mais lenta, “Here Comes The Night” traz uma ambientação noturna, cheia de timbres frios, porém com uma estrutura inegavelmente Pop, evocando nomes como Michael Jackson e ABBA. O peso também é bem-vindo dentro da narrativa de Agnes, vindo sob a forma da distorcida e empoderada “Selfmade”. Com arranjos de cordas, “Fingers Crossed”  traz um dos ápices do disco, momento em que a cantora e compositora nos convida para dançar com todo o fôlego que temos e não temos – quando todos os holofotes estão direcionados para ela. Por fim, o disco que foi conduzido pela batida do Disco se encerra com a faixa que dá nome ao registro: lenta e reflexiva, como um último suspiro das reflexões de Agnes.

Este novo trabalho é um comeback definitivo. Uma mostra de que o tempo é, muitas vezes, aliado do processo artístico e não da conveniência da indústria musical. Agnes continua se mostrando uma esponja cultural dentro das décadas, porém ela não é meramente mais uma passiva dentro deste processo. Agora, sua voz narra aquilo que lhe diz respeito e ressoa para fora de si. Sua voz é protagonista e Magic Still Exists é seu disco definitivo.

(Magic Still Exists em uma faixa: “Fingers Crossed”)

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ARTISTA: Agnes

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.