Atalhos – Animais Feridos

Terceiro disco da banda paulistana traz reflexões e experimentações com sonoridade mais psicodélicas

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Ano: 2017
Selo: Tratore
# Faixas: 8
Estilos: Dream Pop, Folk Rock, Psicodelia
Duração: 40:00
Nota: 3.5
Produção: Gabriel Soares

A música nos leva a descobertas inimagináveis e a banda paulistana Atalhos sabe disso há tempos. Em uma carreira relativamente curta, temos dois exemplares de discos que buscavam, entre suas melodias e arranjos, respostas para perguntas cada vez mais complexas que acompanhavam a idade de seus integrantes. Em Busca Do Tempo Perdido, de 2012, foi um primeiro passo bastante cru e juvenil em busca da exploração da filosofia do cotidiano. Já em Onde A Gente Morre, de 2014, tivemos a oportunidade de desfrutar de uma sonoridade mais amadurecida, cujo principal mote se dava pela exploração entre os sonhos e a realidade. Agora, três anos após seu último lançamento, a banda parece praticamente se esquecer da realidade, à medida que se entrega totalmente a um universo de novas sonoridades e explora questões existenciais e de nosso inconsciente.

Ao darmos o play no disco, percebemos que nós somos os Animais Feridos representados no título. Mais flexível com relação a estéticas, a banda evita por um rótulo em seu disco, nos fazendo acreditar que estamos em algum lugar entre o Rock, o Folk e o Pop. Dessa forma, enquadrar este trabalho em um estilo musical é algo totalmente desnecessário, como se tentássemos caracterizar nossos sonhos com linguagem cinematográfica. Parte da viagem de Atalhos é procurar diferentes influências e a forma como elas sustentam letras de uma filosofia bastante crítica sobre assuntos como religião, cotidiano, romance entre tantos outros. A produção cada vez mais afiada de Gabriel Soares nos dá a impressão de que o álbum como um todo é uma marca da maturidade de seus integrante, pois, além dos temas, a forma como cada música transmite a natureza de diferentes dúvidas é algo delicioso de se degustar durante a reprodução de Animais Feridos.

Com acordes hipnóticos, melodias cativantes e ambientações antigas, A Divina Comédia já define o tom do disco: misterioso. A partir daí estamos sujeitos aos caminhos que a banda resolve nos levar, desde a trip envolvente de The Bell Jar, passando pelo caos desenfreado de A História Do Meu Desabafar, até chegar à desoladora e agressiva Pra Matar. A faixa que dá nome ao disco também revela uma das qualidade mais familiares à banda: a de compor faixas calmas que usam da simplicidade dos arranjos para nos transportar para lugares bem mais suaves – ainda que suas letras permaneçam estabelecidas em metáforas críticas e potentes. Já Le Misanthrope é o completo oposto, nos jogando bruscamente para uma ambientação mais macabra e violenta. Por fim, Onde Está Belchior termina como uma última rampa em direção à queda livre a qual estas perguntas e filosofias nos impulsionaram.

Animais Feridos é mais um capítulo bem escrito na história da banda. É uma fusão de gêneros bem feita e que certamente cativará ouvintes antigos de Atalhos. E para aqueles que não conhecem o trabalho dos paulistanos, a dica é deixar se levar pelos caminhos trilhados. Um disco feito de sonhos e críticas.

(Animais Feridos em uma faixa: A Divina Comédia)

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BOM PARA QUEM OUVE: Peixefante, Wilco, Real Estate
ARTISTA: Atalhos

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.