Resenhas

Bala Desejo – SIM SIM SIM (Lado A e Lado B)

Fruto de um isolamento compartilhado entre amigos, primeiro projeto do quarteto carioca aglutina diferentes referências da MPB em repertório festivo, político e contagiante

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Ano: 2022
Selo: Coala Records
# Faixas: 13
Estilos: MPB, Indie
Duração: 48'
Produção: Bala Desejo e Ana Frango Elétrico

2020, pandemia do coronavírus, a ordem era o isolamento. Cada um, dentro de sua casa, criou seu próprio mundo para atravessar o período sem muito contato com o exterior. Quatro amigos, diante desse cenário, decidem morar juntos e logo recebem o convite de transformar essa literal “residência artística” em show, um trabalho que evoluiu com naturalidade também ao formato disco. Nasciam daí Bala Desejo e seus dois SIM SIM SIM, um registro do mundo construído entre as quatro paredes pela soma dos talentos dos músicos e de um grande (e ilustre) grupo de amigos.

O álbum, dividido em Lado A e Lado B, compila canções que nasceram da convivência entre eles e da vontade de encontrar sorrisos em um mundo que, da noite para o dia, parece ter ficado mais sombrio. O refúgio foi encontrado na amizade, na criatividade e no repertório compartilhado por Julia Mestre, Dora Morelenbaum, Zé Ibarra e Lucas Nunes, que, juntos e em sintonia, se enveredaram por um música popular brasileira de décadas antes deles nascerem. Com isso, o que poderia ser uma obra datada pela pandemia virou um disco atemporal de MPB.

Em entrevistas, os quatro – nomes conhecidos da nova cena musical do Rio de Janeiro por seus trabalhos autorais (Zé e Lucas foram também da banda Dônica) – afirmam que Bala Desejo “não é uma banda”, ao validar o projeto enquanto essa junção de vozes em função de um projeto artístico muito bem definido. É assim, com pose de quem não se leva a sério, que o quarteto e seus comparsas se propuseram a compor e gravar um repertório que, nas mãos de outros, poderia encontrar vários percalços, do pedantismo a uma nostalgia forçada, mas que, nesse contexto, encontrou as condições certas para uma obra que, além de tudo, é bastante simpática.

Pode ter a ver com a coprodução de Ana Frango Elétrico, artista conhecida em parte pelo fator humano e espontâneo em seu trabalho, mas tem mais ligação ainda com o clima de algo feito entre amigos presente desde a gênese do projeto. A própria postura do “não ser banda” tem impacto direto no som: cada integrante não é visto com uma função específica, como em um grupo musical (não há um vocalista, um guitarrista e um baterista, por exemplo), mas todos estão juntos para que a música aconteça.

É interessante notar como essa dinâmica faz com que Bala Desejo não seja o resultado dos “diferenciais” de cada um de seus envolvidos. Não é exatamente o esquema do “um complementa o outro”. A grande coesão do trabalho, na verdade, parece acontecer porque todos os participantes (os quatro, Ana e os convidados escondidos em cada faixa – chamados aqui de “elenco”) encontram ali uma grande intersecção de suas musicalidades. É nessa área em comum que todas as músicas se desenvolvem.

Em primeira instância, esse local estético percorre as já mencionadas décadas passadas de uma MPB hoje considerada clássica, e não é nenhum exagero pensar em Bala Desejo como parte de uma linhagem direta da Tropicália. De olho na produção daquela época e no que ela resultou em décadas seguintes, o projeto trabalhou uma fonte de referências que reside em no repertório afetivo de quem cresceu ouvindo música brasileira e vai reconhecer ecos de Jards Macalé a Rita Lee, de Novos Baianos a Marisa Monte. O próprio “elenco”, que conta com nomes desta nova geração, como Duda Beat e Rubel, além de gigantes como Ney Matogrosso e Caetano Veloso, não está ali nem para agregar com o que falta, nem mesmo para validar as músicas, mas para inflar ainda mais essa tal intersecção que – veja só – o público também participa.

A familiaridade ajuda no primeiro contato com SIM SIM SIM, e fica uma leve impressão de que, mesmo na primeira audição, você já conhece aquelas músicas de algum lugar. À vontade, na sensação de estar em casa, o ouvinte participa daquele universo em atividades que vão muito além do diálogo com as referências. É mais interessante, por exemplo, notar cada detalhe nas músicas – e são muitos –, ou mesmo se deixar percorrer os caminhos líricos nas belas letras e vozes que conduzem as faixas. Ao ouvir alguns dos versos, ao menos em 2022, é difícil não notar a atualidade de alguns dos seus temas.

Lançado em uma pandemia persistente, o disco evoca alguns sentimentos próprios desse tempo, mesmo se as faixas narrarem outros contextos. Há a solidão compartilhada por tantos (se não todos) em “Muito Só” e as saudades de viver momentos alegres em “Baile de Máscaras (Recarnaval)”, duas constantes durante o tempo de isolamento. Essa última termina com o convite para “recarnavalizar”, um apelo que pode ser estendido também para a esfera sócio-política de hoje e a intenção de retorno a um país que permita a felicidade. Da mesma forma, “Clama Floresta” evoca a natureza de uma maneira quase romântica, e momentos como “Nana del Caballo Grande” e “Passarinha” expressam a intencionalidade de ver o Brasil como latino-americano – duas pautas na contramão da ideologia que tem ditado os rumos da nação.

São elementos que caracterizam o “corpo” de SIM SIM SIM como de agora, ao encontro de sua “alma”, que pertence ao sempre. Músicas como “Nesse Sofá” e “Cronofagia” são de um Brasil de que temos amor e saudade, já pertencentes a um repertório compartilhado por todo aquele que entende o valor de celebrar nossa música. Bala Desejo não é uma banda porque não é Julia, Dora, Zé e Lucas, nem mesmo seu elenco, mas todo um momento no qual cada detalhe que o álbum tange é tão relevante quanto encorajador, sendo um abraço em quem acredita na arte compartilhada – seja ela entre amigos ou com um país inteiro.

(SIM SIM SIM em uma faixa: “Baile de Máscaras (Recarnaval)”)

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ARTISTA: Bala Desejo

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.