Resenhas

Beachwood Sparks – Desert Skies

Obra do grupo se mostra como um ótimo disco para se tornar conhecido e mostrar seu talento ao mundo

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Ano: 2013
Selo: Alive Records
# Faixas: 12
Estilos: Country, Psicodélico, Rock
Duração: 57:19
Nota: 4.5
Produção: Beachwood Sparks

Além da nossa marca registrada para os bons discos – o selo ouça – é dever avisar que Desert Skies é um álbum apaixonante e capaz de impedir sua audição, leitor, de outro tipo de música por algum tempo. Depois não diga que não avisamos. Ele evoca uma das paisagens musicais mais interessantes e convidativas, o sul da Califórnia do fim dos anos 60, quando a confluência de bandas que se arriscavam na reinterpretação do country, fundindo-o com o rock e a psicodelia, fazia com que tudo parecesse música e consequência dela.

Beachwood Sparks ficou notório em 2000, quando lançou seu primeiro homônimo álbum pela Sub Pop. Foram incensados como legítimos representantes de uma linhagem que iniciou-se com Byrds, Jefferson Airplane e Grateful Dead, com dedicação e sonoridade extramamentes dignas a ponto dessas comparações não parecerem exageradas. Tiveram uma carreira de poucos discos, lançando Once We Were Trees, em 2001 e o EP Make The Cowboy Robots Cry no ano seguinte. Depois sumiram na poeira dessa estrada triste, ressurgindo em 2012, com um belo álbum de retorno, chamado The Tarnished Gold. Agora o quarteto de Los Angeles joga luz sobre o seu primeiríssimo registro em disco, que jamais foi lançado e o coloca nas prateleiras do mundo. A impressão que Desert Skies causa no ouvinte é a mesma daqueles artefatos de cápsulas de tempo, que ficam enterradas e são abertas vinte, trinta anos depois. Datando de 1998, o disco exala ingenuidade e aplicação por parte de uma banda iniciante, buscando uma identidade sonora que parecia ainda distante.

Beachwood Sparks ficou famoso como um quarteto formado pelo guitarrista e vocalista Chris Gunst, o baixista Brent Rademaker, o baterista Aaron Sperske e o slide guitarrista e tecladista David Scher. No início da carreira, ainda haviam no time o percussionista Pete Kinne e outro guitarrista, Josh Schwartz. Gravado numa garagem de uma só vaga, chamada de Spac Shed, Desert Skies mostra que a sonoridade obtida pelo sexteto é típica de uma banda dos anos 90 tentando revisitar os terrenos pisados não só por Byrds e o pessoal do country-folk-rock, mas também de Beach Boys (que são mencionados em forma de fraseado de teclado chupando desesperadamente I Get Around em Watery Moonlight, bem como os próprios Beatles, que assombram todo o percurso de canções.

Há detalhes magníficos e sensíveis, como as intervenções precisas de órgão Hammond ao longo e, sobretudo, no final de Time, o dedilhado de guitarra psicodélica, típico de um Roger McGuinn adolescente em Sweet Julie Ann e a doideira personificada nos blips e blops viajantes de Midsummer Daydream. A aura noventista é visível no aceno ao imaginário Beach Boys na versão Sweet Summer Vibe de Make It Together, na versão CO2 faixa-título ou no andamento rapidinho de Charm, que parece um rascunho de melodia do Dinossaur Jr, esquecido num porão qualquer.

Desert Skies é um disco que flagra os primeiros passos de uma banda, justo naquele momento em que é possível conquistar o mundo numa palhetada de guitarra ou numa virada de bateria. O Beachwood Sparks pensava em conquistar a galáxia e, se não chegou perto disso, pelo menos foi capaz de produzir música espacial/country/melódica/viajante de ótima qualidade. Recomendadíssimo.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.