Resenhas

Ben & Ellen Harper – Childhood Home

Músico traz o passado para hoje em disco gravado em parceria com sua própria mãe

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Ano: 2014
Selo: Decca
# Faixas: 11
Estilos: Folk, Blues, Rock
Duração: 33:44
Nota: 4.0
Produção: Ben Harper

Ben Harper (https://monkeybuzz.com.br/artistas/ben-harper/) nasceu em 1969, filho de mãe solteira, neto de avós musicistas e versados nos idiomas do Folk, do Gospel e do Blues. Cresceu em Pomona, nas imediações de Los Angeles e, lá pelos vinte e poucos anos, iniciou uma carreira de sucesso bastante plural, na qual cabem discos colaborativos com gente tão distinta quanto o gaitista de Blues Charlie Musselwhite , o grupo Gospel Blind Boys Of Alabama e a formação de Rock Relentless 7 , além de duetos em trabalhos de Jack Johnson e até da cantora brasileira Vanessa da Mata. Agora, mais um ítem vem fazer parte dessa lista: um álbum colaborativo com sua… mãe. Ellen Harper também é musicista e levou adiante a paixão de seus pais pela música tradicional americana, que resultou no The Folk Music Center and Museum, na cidade de Claremont, vizinha de Pomona. Sendo assim, Ben cresceu num ambiente familiar e musical, daqueles em que a mãe e os avós maternos assumem também a função de pai, como se fossem uma espécie de estado maior. O menino ajudava Ellen no museu, na loja de instrumentos musicais do estabelecimento e não podemos dizer que sua afinidade pela música e pelos gêneros mais tradicionais do cancioneiro americano é uma surpresa. A mãe de Harper, por sua vez, sempre manteve vivo seu lado musicista e também não é de se espantar que Ben, do alto de seus 44 anos, tenha decidido revisitar sua infância e adolescência ao lado de Ellen, algo que, acreditem, nem sempre podemos fazer.

Childhood Time tem seis canções compostas por Ben e quatro assinadas por Ellen, todas plácidas, belas, navegando num mar de tranquilidade típico dos projetos bem sucedidos após uma vida dura. A House Is A Home traz instrumental bem próximo da fronteira do Folk com o Country e vem impulsionada por uma levada animada, com destaque para a harmonização entre as vozes. City Of Dreams é um lamento sofrido sobre as confluências das cidades que habitamos no passado com a que vivemos no presente, combustível das projeções incertas acerca do futuro. A voz de Ellen predomina na gravação, gentil e contemplativa, num pequeno espetáculo de sutileza, emoldurado pelo contraponto da voz do filho e um singelo solo de slide guitar. Born To Love You é uma pequena valsa de amor à família e à vida em harmonia, com outro dueto de vozes bastante inspirado. Heavyhearted World é canção de piedade e redenção em tempos de Natal, novamente em andamento de valsa, com discretíssimas intervenções de violão e guitarra acústica.

Um fraseado característico de banjo (tocado por Ellen) introduz a melodia de Farmer’s Daughter, com vocais e instrumental que vão se soltando aos poucos, novamente com destaque para o violão acústico.Memories Of Gold é uma narrativa de Harper sobre a juventude e tempos de inocência em meio às adversidades de se lidar com a vida sem a presença paterna e, mesmo assim, seguir em frente. Altar Of Love é canção de louvor e celebração e Break Your Heart, antecedida por violão sinuoso e pontuada por melodia e narrativa, que poderiam estar presentes no tradicional álbum Country de Bob Dylan, Nashville Skyline, de 1969 – por coincidência, ano de nascimento de Ben. Learn It All Again Tomorrow é outra beleza de canção com alguns toques de The Band, enquanto How Could We Not Believe é mais uma rendição à força da união e da cooperação em busca de superar diferenças e adversidades.

Childhood Home é uma pequena e brilhante pérola de sutileza, reverência e amor pela música, pela família e enaltece o valor inestimável da relação entre mãe e filho, em parâmetros ilimitados. É um álbum que trata o amor pela música de uma forma delicada. Uma verdadeira preciosidade.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.