Resenhas

Black Country, New Road – For The First Time

Dramático e cerebral, disco de estreia da banda britânica cruza novas e antigas referências e já é um dos grandes lançamentos de Rock do ano

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Ano: 2021
Selo: Ninja Tune
# Faixas: 6
Estilos: Post Rock, Post-Punk
Duração: 40'
Produção: Andrew Savours

Há quanto tempo procuramos pela próxima grande banda de Rock? Grande não como um Foo Fighters ou, mais recentemente, talvez um Imagine Dragons – grande em inovação, influência, impacto como Talking Heads ou Sonic Youth. Quando digo procuramos, quero dizer aqueles cujo ofício e/ou entretenimento é pesquisar música e documentá-la, às vezes de perspectivas um tanto quanto condescendes e limitadas. Mas, de qualquer maneira, de tempos em tempos alguns artistas conquistam relevância o bastante para entrar na competição do saudoso pódio da Próxima Grande Banda de Rock.

Já há alguns anos uma nova onda de bandas Post-Punk do Reino Unido vem representando as principais competidoras deste título. black midi, de Londres, Squid, de Brighton, Idles, de Bristol, Mush, de Leeds, e tantas outras lançaram discos que ganharam grande atenção e cobertura nos últimos anos. O mais novo grupo a entrar no páreo é também da Grande Londres e leva o nome de Black Country, New Road, cujo primeiro álbum, For the First Time, foi lançado no dia 5 de fevereiro.

Não é a primeira vez que alguns dos sete membros da banda são colocados nesta lista. O Black Country, New Road foi formado em 2018, a partir da dissolução do Nervous Conditions, que acabou quando o vocalista Connor Browne foi acusado de abuso sexual por duas mulheres. Desse momento “intenso e emocionalmente difícil”, segundo o guitarrista Isaac Woods, que na nova banda atua também como vocalista e letrista, surgiu “um grupo que representa algo importante”, disse em entrevista ao The Guardian.

Woods conta que teve dificuldade para se adaptar ao vocal e escrever as letras da banda no começo, mas todo seu crescimento está documentado no resultado final de For the First Time e em vídeos de apresentações e primeiras versões lançadas nos anos seguintes à formação do grupo. Em “Athens, France”, o vocalista chega a dizer “I have learned so little from what I lost in 2018” (“Eu aprendi tão pouco com tudo o que perdi em 2018”).

Mas essa não é a impressão deixada por For the first time. Apesar da nova formação, a intimidade musical de todos os membros do grupo fica clara desde os primeiros segundos de “Instrumental”, abertura do disco. A bateria retumbante funciona como base para o riff de teclado – que pega inspiração do ritmo judaico klezmer –, as linhas simples de baixo e a grande sacada do Black Country, New Road: o saxofone. Mesmo nos momentos mais experimentais da faixa, a banda soa plenamente compassada e alinhada.

Essa química se dá também pelo fato de todas as faixas serem compostas em conjunto, ainda segundo a entrevista da banda ao Guardian – uma tarefa que parece difícil considerando as diversas seções que compõem várias das faixas do disco, a maioria ultrapassando a marca dos seis minutos.

Puxando principalmente do Post-Punk e Post-Rock, com riffs de guitarra repetitivos e sincopados e vocais spoken word, as comparações com o Slint foram inevitáveis (e a banda tira até um sarro disso na faixa “Science Fair”, se chamando de “the world’s second best Slint tribute band”). Mas, vinte anos depois do auge do Slint, o BCNR atualiza o gênero para 2021 com timbres que viajam pelo Indie e o Emo (como na outro de “Athens, France” e em “Track X”) e em algumas inovações próprias. Outras referências também vêm à mente – a guitarra barulhenta de “Science Fair”, por exemplo, me faz pensar imediatamente no DNA, um dos precursores do No Wave.

O disco fecha com “Opus”, uma junção de todos esses elementos e que muda rapidamente de intensidade enquanto Isaac declama versos sobre o fim de um relacionamento. Em seis faixas e 40 minutos de duração que parecem durar muito mais, For the first time é às vezes intenso e dramático, às vezes compassado e cerebral, mas nunca deixa de exigir muito do ouvinte no melhor dos sentidos.

É difícil dizer se o Black Country, New Road se consagrará ou não como a maior banda de todos os tempos da última semana – e os próprios parecem estranhar toda a atenção que recebem, como disse o baixista Tyler Hyde ao Guardian, “nós somos só sete amigos fazendo som. A atenção é uma honra, mas não consigo me conectar a ela”. Mas o que é possível afirmar com todas as letras é que For the first time é uma bela justaposição dos novos e antigos caminhos do Rock, e isso já é motivo o bastante para celebração.

(For The First Time em uma faixa: “Science Fair”)

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ARTISTA: New Road