Resenhas

Bonifrate – Corisco

Menos “eletrônico” do que em trabalhos anteriores, músico carioca cria atmosfera nostálgica e psicodélica a partir do poder melódico de guitarras e pedais

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Ano: 2021
Selo: OAR
# Faixas: 10
Estilos: Psicodelia, Rock Alternativo
Duração: 42'

Bonifrate não é moleque. Com anos de experiência nas costas e nas discografias –solo ou com a banda Supercordas –, um novo álbum seu é sempre certeiro em ir direto aonde se propõe, mesmo se a proposta for a jornada (que é melhor ainda que o destino, dizem). Corisco é um desses casos. Tem cara de – e de fato é – um trabalho experimental, com o músico deixando de lado abordagens eletrônicas de trabalhos passados recentes para se aventurar em uma sonoridade mais crua dentro dos timbres elétricos, principalmente a guitarra e seus tantos pedais, além de um teclado de décadas atrás. Há ainda um charme vintage que parece querer inserir as novas músicas no imaginário que temos de um tempo que nem chegamos a viver e só conhecemos pelos discos.

Essa nostalgia está também no uso bastante melódico da guitarra, que sabe guiar as narrativas de cada faixa ao lado da letra e, ao mesmo tempo, criar boa parte da atmosfera do disco. É um uso talvez “tradicional”, ou “à moda antiga” do instrumento que combina bem com esse ar saudoso da obra e quebra algum peso que o termo “experimental” pode trazer. O gosto daquela Psicodelia interiorana, um clima pés descalços quase caipira (herança de uma linhagem brasileira eternizada em Os Mutantes, Belchior e Clube da Esquina), que fica no corpo após cada gole do disco, também ajuda a tornar Corisco bem mais amigável do que muitos álbuns que compartilham dos mesmos adjetivos.

O que o disco tem em comum com esse universo é apresentar músicas compostas enquanto debruçadas em cima dos pedais, com uma atitude Post-Rock de encarar melodia e dinâmica. A poesia que Bonifrate canta é ora bastante abstrata, ora parece desenhar sentidos com grande facilidade em versos que saltam ao ouvido. Mas outro paralelo com esse tipo de produção autoral no meio Alternativo é que, mesmo com algumas melodias tão gostosas de se escutar, é o tipo de obra que requer uma certa pré-disposição do ouvinte não só para decifrar suas letras, mas até mesmo para deixar-se envolver pela obra.

Isso está no desenvolvimento alongado de algumas narrativas, especialmente nas faixas de energias mais tristes, que não se desenrolam facilmente até o colo de quem ouve. Corisco é o tipo de obra melhor apreciada com grande intenção, com uma curiosidade exploratória para ver, ou sentir, o que está por trás das melodias e da vontade de voltar a um tempo desconhecido. É um grande descontentamento com o contemporâneo? Mero fetiche pelas referências que residem nos vinis? Ou um jeito bacana de fazer uma música fora do óbvio, que sabe que vai seduzir e repelir na mesma medida? Traga suas teorias sabendo que Bonifrate tem maturidade de sobra para saber não respondê-las.

(Corisco em uma faixa: “Rei Lagarto”)

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ARTISTA: Bonifrate

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.