Resenhas

Braids – Shadow Offering

Produzido por Chris Walla, novo disco da banda canadense utiliza elementos eletrônicos como alicerce de sonoridade mais orgânica e entrega repertório intenso e sensível

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Ano: 2020
Selo: Secret City Recordings
# Faixas: 9
Estilos: Art Rock, Dream Pop
Duração: 44'
Produção: Chris Walla

Há sensibilidade de sobra no que Braids apresenta em Shadow Offering, uma quarta entrada em sua discografia que desenvolve uma identidade para mais perto da sonoridade orgânica. Tudo o que a banda canadense construiu em um universo eletrônico, porém, não é deixado de lado e se mostra como um alicerce sobre o qual a música constrói estruturas ainda maiores. Para além da estética, porém, é um trabalho que se baseia na emoção e sabe aproveitá-la em um dos melhores momentos de um grupo que está habituado aos destaques.

Grande parte das qualidades sensíveis e orgânicas da obra residem no vocal de Raphaelle Standell-Preston. No geral, sua voz aparece em um primeiro plano mais bem definido do que no tratamento que recebia em discos e singles do passado, e está livre para se encher de ar e ousar um volume maior, como em “Eclipse (Ashley)”. Quando ela está por cima de uma cama de instrumentos menos volumosa em “Just Let Me”, temos um dos pontos mais altos do álbum, mas ela não se inibe de brilhar em faixas mais carregadas, como “Fear of Men” – candidata a favorita dos fãs saudosos de uma Braids enraizada no Dream Pop oitentista.

Essa nova maneira de pensar suas músicas deve-se em (boa) parte pela produção de Chris Walla, que fez longa carreira na banda Death Cab for Cutie. Ele traz para o disco a intenção de trabalhar cada uma das nove faixas como seu próprio universo particular, sem se preocupar com uma coesão absoluta no álbum. Ela surge, porém, pela voz de Raphaelle e pelo terreno sentimental no qual toda obra está enraizada.

Isso faz com que Braids entre com os dois pés no Pop em “Young Buck” e viaje dos anos 1980 aos 90 ao longo de “Upheaval II”. Da mesma forma, é o que motiva a banda a encarar uma música como “Snow Angel” e investir naquilo que julga que a faixa precisa – no caso, uma longa duração (nove minutos) e uma progressão tensa que não dá folga para o ouvinte. Para, em seguida, ir na direção oposta e entregar a minimalista “Ocean”, com menos da metade da duração da anterior. Ambas, no entanto, apresentam o mesmo nível de intensidade emocional.

O resultado de todas essas qualidades reunidas ao longo de 44 minutos é uma postura apreciativa do ouvinte que aceita o convite de passear por tantos cantos diferentes de um mesmo território. Mesmo a audição menos comprometida ganha alguns versos saltados aos ouvidos – como “I miss you but I won’t tolerate being ripped apart” (na abertura “Here 4 U”), “I tire of me sometimes/Just like I tire of you” (“Note to Self”) e o “I love you” confessional ao final de “Ocean” –, o que só revela como a ambição de criar uma obra de enorme sensibilidade foi cumprida com louvores.

(Shadow Offering em uma faixa: “Eclipse (Ashley)”)

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ARTISTA: Braids

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.