Resenhas

Bruce Springsteen – High Hopes

Décimo-oitavo álbum do norte-americano revela sua juventude

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Ano: 2014
Selo: Sony
# Faixas: 12
Estilos: Rock, Folk Rock
Duração: 56'
Nota: 4.0
Produção: Brendan O'Brien

Quando anunciou o lançamento de High Hopes, em novembro de 2013, Bruce Springsteen disse que as canções do disco precisavam de um lar. A totalidade do repertório do novo trabalho do Boss é composta por sobras de estúdio e registros feitos nos anos 00, que, com o passar do tempo, foram adquirindo vida própria, deixando o status de diversão ou improviso, para merecer um destino melhor que os bootlegs de fãs ao redor do planeta. Devidamente exposto ao poder de fogo de Bruce e sua E Street Band ao vivo, o Brasil desenvolveu súbito interesse pelas andanças do músico, uma expectativa por um retorno próximo aos palcos do país e pelo novo disco.

High Hopes tem um efeito muito salutar na obra de Bruce. Desde Magic, lançado em 2007, que seus discos encontraram uma zona de conforto natural, com poucos riscos e diferenças estéticas. O último movimento de Bruce visando algo novo foi o flerte com canções de protesto e tradicionais de We Shall Overcome, lançado em 2006, que gerou o registro Live In Dublin, no mesmo ano. Ali, devidamente apoiado por uma banda de Folk Rock e movido por seu espírito roqueiro inegável, Springsteen incorporou elementos musicais novos a seu som, como rabeca, backing vocals e naipe de metais, e isso jogou a favor de suas apresentações ao vivo, aumentando o poder de fogo da E Street Band no palco, o que, convenhamos, não precisava de qualquer amplificação. Mesmo assim, com o resultado bastante salutar, o Chefe seguiu gravando seus discos sem muitas variações, o que não significava a produção de trabalhos ruins, uma vez que Magic, Working On A Dream (2009) e Wrecking Ball (2013), são álbuns pra lá de legais.

Com High Hopes, a visão muda. Sai o feixe de canções compostas para um único objetivo e entra um repertório informal, espontâneo que tangencia o crocante sem abrir mão da cremosidade. É um relatório da carreira de Bruce nesses últimos anos. Há participação de dois veteranos companheiros de palco do Chefe, o saxofonista Clarence Clemons (morto em 2011) e Danni Federici, falecido em 2008 e a grande presença do guitarrista do Rage Against The Machine, Tom Morello, que integrou a E Street Band no ano passado, substituindo Steve Van Zandt, logo no início de 2013. “O encontro foi muito benéfico”, diz Bruce em seu site. Morello aumentou a distorção das guitarras sem abrir mão da pegada natural da banda, apresentando novos rumos. A versão de The Ghost Of Tom Joad, gravada por Bruce em meados dos anos 90 e coverizada pelo próprio RATM anos mais tarde, traz a guitarra de Morello e uma nova e expansiva dimensão ao registro voz/violão original. Morello participa de oito das doze canções do disco. A presença do guitarrista também é decisiva no registro de Just Like Fire Would, cover para o original dos punks australianos do Saints, e da versão definitiva para American Skin (41 Shots).

A faceta storyteller de Bruce também se faz visível em canções como The Wall, feita para um guitarrista de Nova Jersey desaparecido no Vietnã, em Harry’s Place, na lírica Frankie Fell In Love, que lembra demais seus primeiros trabalhos pré-Born To Run, e na delicada valsa Hunter Of Invisible Game, cheia de mudança de andamento e com instrumental que não faria feio num disco de Van Morrison dos anos 80. High Hopes vem nos lembrar da capacidade de Bruce improvisar, juntar cacos e encontrar sua melhor forma musical. É espontâneo, simpático, cheio de nuances e pra lá de digno de figurar numa discografia de pouquíssimos erros, como é a do Chefe. High Hopes é seu décimo-oitavo álbum, pleno de juventude. Ouça.

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BOM PARA QUEM OUVE: Neil Young, Bob Dylan, Mark Lanegan
MARCADORES: Folk Rock, Ouça, Rock

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.