Resenhas

Celeste – Not Your Muse

Estreando no topo das paradas britânicas, primeiro disco da cantora mescla diferentes referências com personalidade e talento

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Ano: 2021
Selo: Polydor Records
# Faixas: 22
Estilos: Soul, R&B, Pop Rock
Duração: 80'
Produção: Josh Crocker, Jamie Hartman and John Hill

Logo em “Ideal Woman”, primeira faixa de Not Your Muse, a cantora Celeste antecipa alguns temas que serão recorrentes ao longo das 22 faixas de seu disco de estreia. No refrão, canta que “not the one that’s gonna save you from all your discontent” (“não vou te salvar de todo o descontentamento”) – e também não a confunda com alguém que se importa. Em uma produção minimalista, destaca-se seu poderoso vocal em uma performance intimista.

Na primeira audição, o “all your discontent” também soa como “mild discontent”, algo como descontentamento moderado. Seja na totalidade ou nas minúcias, há muitas expectativas difíceis de serem superadas. De certa forma, Not Your Muse serve como statement a respeito do universo de Celeste, nascida nos Estados Unidos, mas residente da Inglaterra desde jovem. Aos 26 anos de idade, ela foi laureada com o disputado Som de 2020 pela BBC, além de levar o prêmio de Artista Revelação do Brit Awards.

O resultado: Not Your Muse foi parar no topo das paradas, a melhor estreia de uma cantora britânica desde I Cry When I Laugh (2015), de Jess Glyne. Celeste também foi indicada ao Globo de Ouro pela performance em “Hear My Voice”, canção original da trilha sonora do filme Os 7 de Chicago (2020), do diretor Aaron Sorkin. Antes de despontar brilhantemente em diversas frentes do show biz, ela havia soltado os EPs The Milk & The Honey (2017), sob o selo Bank Holiday Records, de Lily Allen, e Lately (2019).

O comentário mais recorrente pela imprensa gringa é que Celeste dá os passos certos em direção a uma carreira cheia de hits, aos moldes de Amy Winehouse e Adele. Ao longo de 22 músicas, entre algumas já conhecidas como o single “Stop This Flame” ou “It’s All Right”, do filme Soul (2021), a cantora discorre sobre o que passa em sua cabeça e entrega as suas influências – Aretha Franklin e Nina Simone, entre outros ícones do Soul.

“Você escuta Billie Holiday e tudo que ela diz vem dos ossos porque não há nada falso, e isso é o meu primeiro e maior desejo”, disse em entrevista à DIY. Com essa missão, Celeste transita entre moods instrumentais, alguns mais recheados e brilhantes, outros sóbrios e meditativos, preocupando-se com a forma de conduzir cada narrativa. O trabalho foi gravado ao longo de todo o ano de 2019, e o excesso de tracks vem da vontade de abranger essas oscilações: “Acho que é necessário que tenha integridade em todas as partes. Há momentos Pop, mas não é poluído pela ideia de ter sucesso comercial”.

Há o equilíbrio entre faixas reluzentes, como “Tell Me Something I Don’t Know”, com marcante solo de sax no final, e as melancólicas (ainda que esperançosas) guiadas pela guitarra (“Some Goodbyes Come With Hellos”e “In The Summer Of My Life”). Há ainda referências a Erykah Badu, em “Lately” – colaboração com o Gotts Street Park, coletivo de Hip Hop da cidade de Leeds –, e a Amy Winehouse, em “Love Is Back”.

Entretanto, para além das referências, Celeste é capaz de amarrar tudo isso com a sua própria identidade. O perfuminho vintage, presente especialmente em baladas como “Not Your Muse” e “A Kiss” resulta em composições originais e cheias de personalidade. São diferentes atmosferas que contam histórias sensíveis, cotidianas e altamente relacionáveis. Seja a partir de pessoas de nossas vidas que ficam para trás, caso de “Strangers”, ou por meio de observações sobre relações amorosas, como em “Beloved” – faixa ótima para entrar em trilhas sonoras em breve. Ela canta: “Às vezes eu encaro quando não tenho intenção”. Quem nunca?

(Not Your Muse em uma faixa “Beloved”)

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ARTISTA: Celeste

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