Resenhas

Chris Robinson Brotherhood – Phosphorecent Harvest

Disco é uma ótima pedida para os saudosistas da Psicodelia dos anos 70

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Ano: 2014
Selo: Silver Arrow Records
# Faixas: 11
Estilos: Roots Rock, Space Rock, Neo-Psychedelia
Duração: 65:19min
Nota: 4.0
Produção: Thom Monahan

Chris Robinson passou um bom tempo de seus 48 anos de vida à frente de bandas de Rock. Após as formações da adolescência, vivida em Atlanta, Robinson, sempre com seu irmão Rich, liderou uma clássica instituição do que se chama hoje de Roots Rock, The Black Crowes. Após mais de duas décadas de bons serviços prestados aos bons sons, discos sensacionais no currículo, gravações ao vivo com heróis como Jimmy Page e várias peripécias nas estradas empoeiradas dos Estados Unidos, Chris resolveu seguir um caminho próprio e dar vazão a uma variação ainda mais viajante do estilo. Se com Crowes a coisa ficava centralizada na interseção entre R&B sessentista e Blues Rock tradicional (sempre sendo comparados a monstros como Faces e Humble Pie), com seu novo grupo, Chris Robinson Brotherhood, a liberdade é maior e a possibilidade de experimentação é ilimitada.

Quando falamos de experimentação, nos referimos aos terrenos caleidoscópicos do Rock californiano do fim dos anos 1960, perpetrado por gente como Grateful Dead (quando a coisa era mais ácida, no sentido farmacológico do termo) ou Allman Brothers (quando a aura ficava mais blueseira), bandas que nunca tiveram medo de expandir fronteiras e que arrastavam multidões em seus shows – constantes, enormes, grandiosos – pelos EUA. A CRB segue essa mitologia bem de perto. De 2012 até agora, a banda já fez mais de 230 apresentações pelos rincões da América, encontrando gente que não tem qualquer problema em viver numa dobra temporal em looping, mantendo-as em 1972/73. Chris também não vê nada desabonador nisso, mas tal característica não significa que seu som é datado ou desinteressante para as pessoas que entendem a música como novidade. Há muito de atual em suas canções, a partir do momento que nem tudo e todos estão na esteira de hamster que se tornou a sociedade neo-capitalista do século XXI. Pelo contrário, mesmo os mais modernos e descolados buscam atalhos para um tempo ido, ainda que não entendam esse processo completamente. Chris Robinson e sua Irmandade estão dispostos a mostrar o caminho. Com Chris e Neal Casal nos vocais e guitarras, o tecladista do Black Crowes Adam MacDougall, George Sluppick na bateria e Mark Dutton no baixo, a estrada parece sempre aberta.

Phosphorecent Harvest, com seu título bandeiroso e hippie ao extremo, tem início na estranha progressão de teclados, guitarra e bateria que antecedem a levada clássica e rápida de Shore Power, que parece alguma canção de The Rolling Stones de 1971, sequestrada por aliens e submetida a experiências de alteração de DNA. Teclados à la The Doors, pianos honk tonk e efeitos malucos dão o tom. About A Stranger é balada clássica, empoeirada e forjada nas espeluncas de beira de estrada, perto do México. É tudo o que Bon Jovi quis fazer em termos de canção mais lenta e jamais foi capaz de executar. Meanwhile In The Gods… é canção obscura de jukebox de bar no qual se reune uma dessas gangs de motociclistas contemporâneas. A primeira canção absolutamente sensacional do disco é Badlands Here We Come, com seu clima de trilha sonora de Ennio Morricone e duelo ao por do sol, devidamente transmutada em lado B dos Allman Brothers. Clear Blue Sky & Good Doctor é outra maravilha, com introdução pontuada por assovios, levada harmoniosa e uma desconcertante mudança de andamento a partir dos quatro minutos de duração e a entrada de efeitos viajantes, pássaros cantando e a própria chegada da Era de Aquarius em forma de canção.

Beggar’s Moon é Boogie torto e embriagado com clima de passagem de som no Fillmore West, famosa casa de espetáculos de São Francisco. Wanderer’s Lament é balada clássica, cheia de floreios de piano e climas de violões acústicos tramados com órgão, uma beleza. Tornado é falsa balada, com levada quebrada de bateria e órgão que brinca com o andamento enquanto se alterna à guitarra de Neal Casal. Jump The Turnstiles tem efeitos espaciais de teclados tocados no futuro do pretérito, enquanto Burn Slow é climática, sombria, viajante, contemplativa e pronta para pedir licença ao panteão das melhores baladas dessa natureza no Rock de todos os tempos. O fecho com a instrumental Humboldt Windchimes mantém a necessidade de ampliação da capacidade de percepção. É canção solar, feliz, mas pontuada por efeitos serelepes de teclado e guitarra moleca. Beleza pura.

Phosphorecent Harvest é psicodelia sincera e – por incrível que pareça – atual, pronta para ser entendida e apreciada por uma juventude urbana demais, tecnológica demais, consumidora contumaz de fast food, que precisa ir mais devagar nessa vida. É um disco para ser ouvido como quem procura detalhes num grande quadro.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.