Resenhas

Christian Lee Hutson – Beginners

“Célebre desconhecido”, californiano retorna com Folk intimista e, amparado por bela produção de Phoebe Bridgers, conta histórias sobre dor, arrependimento e perdão

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Ano: 2020
Selo: Anti-
# Faixas: 10
Estilos: Folk
Duração: 36’
Produção: Phoebe Bridgers

Christian Lee Hutson pode até ser um rosto novo para a maioria de nós, mas se encaixa num seleto grupo de músicos: os “célebres desconhecidos”. Alguns dos lançamentos mais interessantes dos últimos anos contaram com sua presença, ainda que somente por trás das cortinas. Agora, chegou a hora de ele sair dos bastidores e finalmente ter sua voz ouvida.

O músico lançou dois álbuns solo no início da década passada, os quais, atualmente, não estão disponíveis em nenhuma plataforma de streaming. Sua vida como músico prosseguiu, mas só mudou de verdade quando encontrou, em 2018, a cantora Phoebe Bridgers, com quem criou algumas das composições do projeto Boygenius (ao lado de Lucy Dacus e Julien Baker) e mais algumas canções do também colaborativo Better Oblivion Community Center (envolvendo Conor Orbest). Agora, Phoebe é que assume o papel de produtora no novo registro de Lee.

Bom, Beginners não é exatamente um começo, mas, sim, um reinício do músico, que volta a lançar sob seu próprio nome depois de seis anos – seu segundo e até então último álbum, Yeah Okay, I Know, saiu em 2014. Além de Brigders, ele conta com a participação dos amigos feitos nesse ponto de virada em sua vida. Lucy, Julien e Conor aparecem aqui e ali na obra, assim como Hutson o fez em discos desses artistas.

Lee não tenta reinventar a roda. Não há nada de exatamente novo ou revolucionário no registro, o que não o impede de nos fisgar. O familiar também chama a atenção, ainda mais em um estilo como o Folk, que preza muitas vezes por uma instrumentação simples. Gitarras ou violões bem tocados, muitas vezes, são a base musical perfeita – e suficiente – para um bom contador de histórias fazer seu trabalho. E Christian é um ótimo contador de histórias e reverbera referências a Elliott Smith ou Sufjan Stevens.

O trunfo do projeto está em seu aspecto lírico. As letras de Hutson escancaram sua intimidade e são dolorosas confissões de quem parece enfrentar uma crise dos 30 anos ao examinar seu passado. “Eu escolhi esse título porque é como eu me sentia na vida agora. Eu continuo aprendendo e tentando descobrir como navegar por este mundo”, diz o músico no release do disco. Em pouco mais de meia hora, ele canta sobre dor, arrependimento, perdão. Um amadurecimento repleto de nostalgia triste e de reflexões sobre um passado que talvez nunca se cicatrize.

Esse sofrimento não precisa ser gritado para ser sentido. Lee quase sempre mantém sua voz baixa, numa entrega quieta, às vezes quase sussurrada. Na mesma linda do neófito dessa nova onda Folk, Angelo De Augustine, Lee parece murmurar para si mesmo suas reflexões, como se não percebesse que falava isso (ou no caso, cantasse) em voz alta. As histórias que nos conta parecem que já foram contadas, recontadas e reeditadas em sua cabeça muitas vezes – algo pelo qual todos já passamos, não é mesmo?

É aí que a produção de Phoebe Bridgers mais brilha: ao criar as camadas perfeitas para esse leve cantar ser ouvido. O violão ou uma guitarra dedilhada são acompanhados magistralmente por cordas (criado por Nathaniel Walcott, do grupo Bright Eyes), com aparições ocasionais de um trompete ou uma gaita. Cada elemento aparece discretamente sem interromper o mais importante, a história de Lee.

E quem melhor para explicar sua própria obra do que o próprio Christian? Ele resume a obra com: “Eu quero que as pessoas sintam que isso é normal: estamos nos fodendo o tempo todo, estamos aprendendo e vivendo; e tudo vai dar certo (…) Eu nem sei se acredito cem por cento nisso que estou dizendo, mas é uma voz que eu sempre quis ouvir em minha vida”.

(Beginners em uma faixa: “Unforgivable”) 

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Autor:

Apaixonado por música e entusiasta no mundo dos podcasts