Resenhas

Crystal Fairy – Crystal Fairy

Supergrupo estreia com bom disco barulhento

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Ano: 2017
Selo: Ipecac
# Faixas: 11
Estilos: Rock Alternativo, Punk Rock, Garage Rock
Duração: 40:15
Nota: 3.5
Produção: Toshi Kasai e Chris Common

Em um mundo perfeito, qualquer festival que levasse o nome “Rock” deveria convocar uma banda como Crystal Fairy para tocar. Não precisa de nenhuma música conhecida da plateia, nenhum hit em rádio ou televisão ou algo assim. Basta ouvir uma vez o disco homônimo de estreia dos caras e ver o potencial sônico deste pequeno e invocado feixe de onze canções. Apostar numa banda assim também outro fator de redução de riscos: trata-se de um “supergrupo”, no qual a vocalista Teri Gender Bender (de Les Butcherettes) comanda um trio casca grossa formado por Buzz Osborne e Dale Crover (Melvins), além do prolífico Omar Rodriguez-Lopez, ex-The Mars Volta e At The Drive-In. Essa gente toda reunida é responsável por uma discreta e simpática joia esporrenta e enguitarrada.

Apesar do som do grupo pairar sobre a evolução do Punk estadunidense ao longo dos anos 1980 e sua mutação em Rock Alternativo na década seguinte, o que ouvimos aqui tem certa aura de atemporalidade. Além disso, a qualidade sonora é além do padrão que temos hoje, cortesia dos produtores Toshi Kasai e Chris Common, acostumados a trabalhar com as bandas originais dos integrantes, desta forma, respaldados na podreira invocada já há bastante tempo. O resultado das forças dos quatro participantes não emula seus grupos de origem, mas se mesclam com a espontaneidade de principiantes, fazendo com que Crystal Fairy soe como um grupo velho novo em folha, que parece ter sido encontrado sob o gelo ártico em perfeitas condições.

O legal por aqui é a certa esquisitice angulosa que impede as canções de serem meros esporros de três, quatro minutos e nada mais. Há detalhes como a voz rascante de Teri e a sonoridade guitarrística obtida por Buzz, que soa enorme, como se ele se desdobrasse em dois, três, além de disponibilizar riffs e licks que oscilam entre o peso-pesado de três acordes e a psicodelia mais elaborada. Além dele, a cozinha formada por ORL e Dale Crover não hesita em fornecer contraponto e força para a sonoridade ganhar em ressonância. Tudo funciona por aqui em termos de produção e uso do estúdio, o que é bem legal num tempo em que isso parece pouco importante para um disco fazer sucesso.

Canções legais? Temos. Chiseler abre o disco com velocidade supersônica, riffs sujos, andamento pervertido e vocais subterrâneos, que vão oscilar entre o doentio e o infantil com facilidade, chegando aos píncaros quando chega o refrão. Drugs On The Bus tem título bandeiroso, arranjo psicodélico/metaleiro que vai evoluindo numa narrativa maluca e quase-trágica, com destaque absoluto para o clima que a guitarra de Buzz consegue obter aqui, soando maior que tudo e todos. A faixa-título também tem som enorme, parecendo musicalmente com algo próximo de uma cruza estranha entre Jane’s Addiction e [Black Sabbath](), com destaque absoluto pros vocais de Teri, que novamente atinge várias tonalidades e personas ao longo da canção. Under Trouble tem andamento lento e mamútico, meio Stoner Rock, enquanto Bent Teeth é uma pequena e musculosa explosão. O fim apoteótico vai a 300 km/h com Vampire X-Mas. Qualquer plateia do mundo seria ganha por uma banda com tamanha energia.

Crystal Fairy, o disco, é uma bem acabada farra sonora com peso e senso de oportunidade, sacudindo um gênero – o Rock – que precisa de reafirmação como algo identificado com a juventude planetária. A banda é uma boa reunião de velhos e novos lobos do asfalto, movidos por substâncias lícitas ou não, dispostos a criar confusão e causar na estrada. Ótima pedida. Ouça logo.

(Crystal Fairy em uma música: Chiseler)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.