Resenhas

Curtis Harding – If Words Were Flowers

Terceiro disco do artista americano adiciona psicodelia e toques de R&B noventista à linguagem clássica do Soul

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Ano: 2021
Selo: Anti
# Faixas: 11
Estilos: Soul, R&B, Psicodelia
Duração: 41'
Produção: Curtis Harding e Sam Cohen

Curtis Harding é uma daquelas joias que por muito tempo se manteve oculta. Criado em cima de discos da Motown e Gospel, Curtis fez do Soul sua terra natal. Antes de seguir sua carreira solo, o artista acompanhou por muito tempo o coletivo de Hip Hop Proseed, época em que conheceu CeeLo Green. A partir de então, seu talento como exímio arranjador e profundo conhecedor das nuances do Soul foi extremamente útil para os projetos que se seguiram. Em 2010, em parceria com o guitarrista da banda Black Lips, Curtis também construiu um projeto chamado Night Sun, em que, apesar das referências irem mais à direção de um Indie Rock ríspido e estridente, havia muito espaço para que ele pudesse trazer seu pensamento musical, ágil e preciso. Aos poucos, ficou evidente que Curtis tinha muito mais a dizer e criar, ao invés de ser apenas uma ajuda em discos alheios. Assim, em sua carreira solo, começou a produzir discos concentrados no Soul/Gospel – Curtis voltara para seu templo. Isso já ficava claro com título de seu primeiro trabalho solo: Soul Power (2015)

Ao longo da década de 2010, era evidente que Curtis estava em seu lugar ideal, construindo arranjos pontuais, repletos de melodias suaves e feitos de uma maneira que passava um sentimento de minucia em cada faixa – principalmente em Face Your Fear de 2017. Entretanto, tamanho controle foi colocado em xeque assim que a pandemia atingiu Curtis em 2020. Com um disco pronto para ser lançado, o artista se viu obrigado pela gravadora a segurá-lo. Os prazos foram adiados e o que parecia um evento que poderia acabar com meses de trabalho, tornou-se uma segunda chance para que Curtis entendesse melhor se aquele, de fato, era o formato final do disco. Surgiu um tempo para que ele pudesse ser ainda mais cauteloso e cirúrgico. Metade do disco até então foi descartado, novas canções foram compostas e o trabalho acabou tomando um rumo novo. Este novo e dourado caminho é a ambientação proposta para o iluminado disco If Words Were Flowers.

Terceiro disco solo de Curtis, este é um momento em que as referências do Soul e Gospel ainda brilham como nunca. Aquele som da Motown está 100% presente neste trabalho, mas, para além da estética dos anos 1960/70, o registro ganha tonalidades inéditas na discografia de Curtis. Há uma abordagem direcionada para integrar referências voltadas para a Psicodelia dos 70, mas também o R&B 80/90. Mas, tratando-se de Curtis Harding, estas novas referências são colocadas de maneiras muito sutis, fugindo de estereótipos e filtrando apenas o essencial. Não é aquela lisergia caótica da Psicodelia, nem acordes super complexos do R&B, mas, respectivamente, a sensação de estar sendo suspenso e tomado pela suavidade dos arranjos. O centro temático do trabalho é a música Soul/Gospel, mas estes acréscimos vindos de diferentes gêneros e em quantidades suficientes dão a If Words Were Flowers seu charme próprio. É novamente mais um testemunho do talento de Curtis como produtor, mas também como ativo pesquisador musical que encontra em cada particularidade sonora uma possibilidade de reimaginar sua tradição.

A faixa que batiza o trabalho é a responsável por abri-lo, não economizando no potencial vocal dos cantores para construir uma ambientação quase sagrada –adentramos o templo de Curtis. “Can’t Handle It” traz parte da psicodelia à tona, com delays e reverbs moderados, o suficiente para fazer os ouvintes alçarem voo dentre das sonoridades douradas da Motown. “Explore” tem mais suingue e os sintetizadores analógicos são pontuais para construir um híbrido ainda mais suave de Soul. “The One”, por sua vez, tem peso maior, em uma batida mais lenta, mas que faz uso de metais caprichados, evocando aquele sentimento de juventude dos anos 1970. “Forever More” é o resultado de uma fusão de R&B com Soul, leve e calma, principalmente nas linhas de guitarra. “I Won’t Let You Down” encerra o trabalho em um hit melancólico no som, porém otimista na letra que trata de companheirismo e amizade –  cantada em uníssono com o mesmo coro que abriu o trabalho.

If Words Were Flowers não é “um disco da pandemia”, mas certamente se beneficiou deste “tempo extra” para entregar um material fino. Apesar de não sabermos como o registro seria antes de ser editado, a qualidade do produto final apenas depõe a favor de Curtis Harding. É um trabalho que funciona tanto como reafirmador da tradição do Soul, quanto como demonstração de que ainda é possível, para além de purismos, acrescentar novos elementos a linguagens plenamente consolidadas.

(If Words Were Flowers em uma faixa: “I Won’t Let You Down”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.