Diomedes Chinaski – Comunista Rico

Mixtape experimental do rapper pernambucano permite-se extrapolar para outros rumos musicais

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Ano: 2018
Selo: Independente
# Faixas: 12
Estilos: Hip Hop, Trap
Duração: 44:00
Nota: 3.5
Produção: Dario Beats, HTTP, JNR Beats, Luiz Lins, M2K, Makalister, Mazili, A Orquestra Imaginária, Pedro Miguel, Will Diamond & WillsBife

Ao final de Intro, faixa que abre os trabalhos da mixtape de Diomedes Chinaski, ouvimos um verso que define o que será consumido nos próximos minutos: “Comunista Rico, porque riqueza de verdade é compartilhar” explica o paradoxal título Comunista Rico, como se apresentasse uma sinopse que parecia escondida. A história do rapper pernambucano, no entanto, mostra-se coerente com tudo isso – um rapper político, existencialista como seu sobrenome tirado de Bukowski e que derrama em suas palavras uma vivência complexa e crua.

Como diria Don L, outro rapper contemporâneo e que participa aqui em faixas como Camisa 10 e parceiro no clipe de Comunista Rico: “a mixtape escorre vida”. Por bem ou por mal, essa é a diretriz principal de uma obra que se permite experimentar, errar e acertar em momentos chave sem nunca se despir da realidade ou dos problemas psicológicos. “Eu já tive ego frágil”, “tenho a fórmula do bairro/roupas velhas, baixa autoestima e déjà vus sombrios” são versos que expõem fraquezas de Diomedes, artista que já revelara outras facetas políticas e críticas em Ressentimento II, mas que diria que não podia chorar por ser correria.

O autotune acaba por filtrar quase que todos os momentos de Diomedes, escolha que traz uma textura distinta ao que fora criado até então por ele e que valoriza sua capacidade por versos e ganchos melódicos. Músicas como Se Pá Tá Tudo OK com Makalister e Jovem Eco, Call Comunication com Raffa Moreira e Orquestra Imaginária, Diabinha com Djonga, além da faixa título (um das das melhores músicas do trabalho) combinam com essa escolha e flertam com sucesso com o Trap e vertentes mais contemporâneas do Hip Hop. Alma Perdida traz os toques de filme de horror de seu imaginário aderidos ao gênero. O grave e os hi hats frenéticos comem solto por tais momentos e fogem de Ressentimentos II, um EP baseado essencialmente em samples.

Pelo resto do disco, temos seus altos e baixos, vistosos em experimentalismos que podem trazer canções híbridas como o “Rock” à la Kanye West em Cancer, baladas com Soul como em Outro Dia ou o Funk safado de Ménage. Se no papel as variações trazem novas facetas ao músico, como produto final soam um pouco desconexas do resto do disco como um todo – a cadência e liberdade que o nome mixtape traz a uma obra explicam tais escolhas e mostram um futuro promissor para onde o músico quer chegar no curto prazo. Seu valor, logo, acaba por residir no processo transformador e permissivo do disco.

Comunista Rico não foi feito para ser compreendido ou apreciado de cara: suas intenções são distintas e expositivas – continuar a cutucar feridas dolorosas internas sem cura de Diomedes vindas de dramas psicológicos, como também expor a realidade da desigualdade racial na excelente Jovem Nego Rico. Sua intenção vem por querer compartilhar tanto os momentos de riqueza como de pobreza – as raivas e alegrias de uma vida exposta à beira de um fim súbito, seu “plano b”. As escolhas como um disco do começo ao fim causam o estranhamento necessário para a construção de Diomedes, de longe, um dos rappers mais promissores, avançados e necessários no inchado e por vezes avoado cenário do Rap brasileiro.

(Comunista Rico em uma música: Se Pá Tá Tudo Bem)

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BOM PARA QUEM OUVE: Raffa Moreira, Baco Exu do Blues, Don L
MARCADORES: Hip Hop, Trap

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.