Resenhas

Doves – The Universal Want

Após longo hiato, sensação Indie dos anos 2000 retorna respeitando a nostalgia, mas repagina referências de maneira envolvente

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Ano: 2020
Selo: Heavenly/Virgin
# Faixas: 10
Estilos: Indie, Indie Rock, Post-Britpop
Duração: 47'
Produção: Doves & Dan Austin

O hiato de uma banda é um momento delicado. A incerteza coloca os fãs em uma posição de espera, que pode redundar em um fim súbito ou em um retorno grandioso. Para o artista, o período de hiato pode servir como momento de novas confabulações criativas, que resultam no famoso disco de retorno. Nele, são depositadas esperanças, expectativas e muitos impulsos nostálgicos que, por um lado, podem propiciar o disco que os fãs queriam ouvir, mas, por outro, um grande salto criativo que seu público nem sempre acompanha ou deseja.

Esta era a posição que a banda inglesa Doves ocupava até aproximadamente o começo do ano, quando anunciaram que, após um hiato de quase dez anos, lançariam singles para arrecadar fundos para o Teenager Cancer Trust. Agora, o grupo finalmente mostra o produto de uma longa espera. Uma espera que, apesar de longa, foi ministrada com muito cuidado.

Doves ocupa um lugar de destaque dentro da explosão Indie do final dos anos 2000. Seu single “There Goes The Fear” embalou um dos fenômenos hipsters cinematográficos mais influentes da década, o filme 500 Dias Com Ela. Em seu novo disco, The Universal Want, a herança de uma sonoridade jovial permanece como um tesouro especial. Em entrevista, o baterista Andy Williams contou que o processo criativo envolveu também desenterrar projetos de canções que permaneciam guardadas desde a época do disco anterior, Kingdom Of Rust (2009). Somado a isso, o grupo se estabeleceu em uma lógica bem mais preocupada em desenvolver aspectos criativos do que cumprir prazos, rejeitando uma ensandecida correria de terminar o disco a tempo. O processo durou três anos e, portanto, fica claro que Doves queria fazer as coisas respeitando um tempo lógico.

O tempo, aliás, parece ter sido uma ferramenta totalmente favorável ao processo do grupo. Durante os dez anos de hiato, os membros se envolveram em diferentes projetos. O baixista Jimi Goodwin aproveitou o tempo para lançar seu disco solo, Odludek (2014), já os outros dois integrantes retomaram o Black Rivers, projeto antigo e que se concretizou em um disco lançado em 2015. Assim, esses anos imprimiram novas dinâmicas criativas que certamente influenciaram a sonoridade deste novo trabalho. The Universal Want até conversa com o Indie nostálgico, mas acrescenta uma dose sincera de Folk à construção de campos sonoros amplos. Parece que a timidez sonora de discos como The Last Broadcast (2002) não é capaz de abarcar mais os impulsos artísticos do grupo.

A faixa de abertura já deixa isso claro. “Carousels” brinca com as texturas amplas da Ambient Music, definindo o tom inicial para que o ouvinte adentre o tão aguardado registro. Dentro deste imenso espaço, o dedilhado e a melodia inconfundivelmente Indie renasce em “Broken Eyes”, uma das canções guardadas do disco passado e remodelada sob novas influências. “Cathedrals Of The Mind”, por sua vez, tem influências oitentistas, principalmente nos sintetizadores à la Blade Runner que se alojam amigavelmente em uma célula rítmica de Dub. Para o saudoso hipster de coração partido, Doves entrega “Cycle Of Hurt”, uma canção que permeia um lado melancólico-belo do Indie, tal qual Coldplay fazia em seus primeiros discos. Por fim, “Forest House” encerra o disco da mesma forma que começou: em sintonia com a Ambient Music só que, desta vez, escorando-se no mistério de acordes de violão de aço característicos do Folk Americano.

The Universal Want vem como uma expressão autêntica do grupo e que é trazida ao mundo no momento em que era possível. Este não parece ser um trabalho de um retorno apressado, muito menos um disco lançado apenas para cumprir tabela com os fãs. Ele revitaliza um lado muito conhecido de Doves, utilizando elementos que foram progressivamente aprendidos ao longo desses dez anos de outras experiências musicais. É um disco envolvente, que revê elementos do passado e respeita o tempo da banda. Um respeito muito generoso.

(The Universal Want em uma faixa: “Forest House”)

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ARTISTA: Doves

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.