Resenhas

Fábio de Carvalho – Sonho de Cachorro EP

Músico mineiro lança pequena obra afetiva que mostra grande evolução musical

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Ano: 2016
Selo: Independente
# Faixas: 5
Estilos: Folk Alternativo, Lo-Fi
Duração: 29:00
Nota: 4.0
Produção: Fábio de Carvalho, Fernando Bones

De todos os pensamentos, narrativas e devaneios do excelente EP Sonho de Cachorro de Fábio de Carvalho, um permanece enraizado na minha cabeça: “é engraçado como é alienante o simples ato de viver”. Último verso cantado pelo jovem mineiro na obra em Ana, o trecho sintetiza bastante os novos caminhos que foram seguidos desde sua estreia em Tudo em Vão.

Fábio está mais dinâmico, sendo difícil de conceber em qual estilo musical o seu EP se insere – temos momentos de Folk Alternativo, Lo-Fi e Indie Rock em cinco músicas que se estendem por longos e viajantes trinta minutos. Sua narrativa, antes bastante centrada em ansiedades, anseios e inseguranças, se dissipa por histórias que podem ser ficcionais ou não, subjetivas ou não, vindas direto do ouvinte tais interpretações. Tal como o sonho do cachorro de seu título, não sabemos se esses insperáveis companheiros humanos sonham ou não, apenas que vivem e se relacionam com todos nós, algo que a música de Carvalho nos permite auferir igualmente independente de seu caráter fictício .

Podemos nos ver distantes quando os primeiros acordes de Ver e Ser Visto (com Sentidor) começam a tocar – a grandeza velada e serena da canção parece abraçar o ouvinte cuidadosamente. Os devaneios se consolidam em pequenos versos conectados por sons em uma composição lindíssima e aconchegante – seu grande valor permanece na falta de sintática. Seus signos não se conectam, mas, paradoxalmente, trazem algum sentido em sua direção. Frases bem construídas que não são interligadas, mas, ainda sim, belas por si só. A faixa explicita a maturidade e a evolução vista em pouco mais de um ano entre suas obras.

Fábio domina a sua arte e traz para perto nomes como Sara Não Tem Nome na dançante, cheia de reverb e toques dos anos 1980 Deusa do Mar. Seu suíngue é infectado por versos como “Você não tem a obrigação/De se ocupar/De um homem que sonha em acordar/Num mar glacial” e o especialmente preciso “Eu não posso deixar/O pássaro fazer ninho na minha cabeça”, o que tornam por fim a música em uma das baladas mais inusitadas do ano. A produção conjunta com Fernando Bones permitiu uma expansão surpreendente no leque de possibilidades e na própria narrativa do disco – é comum encontrar momentos que se dissipam em várias pequenas canções, como em Ver e Ser Visto ou nos interlúdios instrumentais na densa Fogo. Essa, aliás, traz uma história de amor que não precisa ser real para mostrar sentimentos verdadeiros – o desfecho de um romance e toda a paranoia que acomete seus momentos posteriores fazem da faixa a mais direta e impactante da obra.

Sonho de Cachorro faz sentido no EP e mostra a troca de corpo e espírito que Fábio tem com os dóceis animais – “eu vou ser sempre ser seu amigo, eu vou sempre tentar”. Algo no olhar canino capta a atenção do músico e, como um expectador alienado nas rotinas diárias, Carvalho consegue captar nuances e relembrar (ou criar) fatos tão tatéis e crivéis. Ana, por exemplo, nos coloca suas melhores qualidades ao longo de sete minutos subdivididos em algumas canções – sua primeira parte lembra muito as historias de Sun Kil Moon e a sua narrativa, linear como um livro infantil feito para adultos, acaba por emocionar profundamente o ouvinte. Por fim, o novo contato se torna inesquecível, expansivo e coloca um músico que busca criar novas formas de entretenimento com muita imaginação e virtude. A sensação final que temos é que se perder dentro de uma geração faz um gigantesco bem a todos.

(Sonho de Cachorro em uma música: Deusa do Mar)

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.