Resenhas

Fernanda Takai – Na Medida do Impossível

Primeiro trabalho solo da vocalista do grupo Pato Fu se deixa levar por um som já conhecido e agradável, desperdiçando a chance de criar algo novo

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Ano: 2014
Selo: Deck Disc
# Faixas: 13
Estilos: Pop, MPB
Duração: 49:00
Nota: 3.0
Produção: John Ulhoa
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2Fna-medida-do-impossivel%2Fid814554068%3Fuo%3D4%26partnerId%3D2003

Fernanda Takai dispensa comentários após todos os trabalhos prestados junto ao grupo Pato Fu e lança agora seu quarto trabalho solo, desta vez concentrada em composições suas, Na Medida do Impossível. Mesmo recebendo a aura de inédito trabalho solo, diversas participações especiais foram acrescentadas, como Zélia Duncan e Samuel Rosa nos vocais, ou mesmo criações em conjunto com Pitty e Marcelo Bonfá. No entanto, o disco não perde em nenhum momento a identidade da cantora com seu jeito fofo e sereno de cantar.

Talvez este seja o grande defeito de um álbum muito bem produzido por John Ulhoa: A falta de sinceridade em alguns momentos ou o relaxamento de Takai para outras formas de expressão. Rígido, Na Medida do Impossível agrada quem já está acostumado com outros trabalhos da cantora, mas não atrai ninguém que espera realmente algo inédito aqui. Diante de uma série de bonitas músicas, o mesmo timbre é constante, seja falando sobre a alegria de uma Doce Companhia (versão de uma música de Julieta Venegas) ou sobre a Partida de álguem amado. O que diferencia a atmosfera entre cada faixa é a orquestração e a produção de seu marido, enquanto a voz sempre parece nos transmitir as mesmas coisas independente de estarmos falando sobre felicidade ou tristeza.

Constatamos logo que a artificilidade toma conta, de certa forma, da obra. Isso não ocorre somente pelo constante timbre de voz, mas também por ser um disco repleto de versões, ou seja, novas interpretações de palavras antigas e que, mesmo quando traduzidas, não se transformam em sinceridade do intérprete. Como Pra Curar essa Dor, cover de George Michael e que traz a participação de Samuel Rosa. Reimaginada por John, a faixa traz um ótimo trabalho de produção e é divertido escutá-la. No entanto, não conseguimos sentir em nenhum momento “a dor” e o sofrimento cantado por seus intérpretes. Seu Tipo é feliz e deve agradar muito aos fãs de seu grupo, enquanto You and Me and The Bright Blue Sky é cadenciada e perfeita para ser aproveitada em uma viagem de carro, diante de uma paisagem bonita e contemplativa.

O melhor momento acaba surgindo de forma inesperada na versão de Takai e Zélia Duncan para o, infelizmente falecido, Reginaldo Rossi. Em Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme percebemos uma ótima interação e muita sensualidade e espontaneidade, algo que custamos a ouvir até então. Sua orquestração mais cadenciada e suingada é um convite à dança e à paquera e pode ser considerada, de longe, a melhor faixa do trabalho. A bela homenagem ao músico pernambucano é muito bem-vinda e quebra um pouco o clima amoroso e bonitinho escutado no disco. Amar como Jesus Amou, feita com o Padre Fábio de Melo, é bastante infantil e tem cara de que deve ser utilizada para que as crianças achem o ensino religioso um pouco mais divertido.

Chega a ser curioso perceber que a fragmentação de Takai em diversas facetas líricias não a leva nunca a transparecer seu verdadeiro sentimento. Talvez pela pressão de um trabalho solo e que tipo de recepção ela poderia ter, seu comportamento acaba se tornando conservador na maioria das faixas. Pato Fu é percebido em cada canção, algo que não seria dificil de se imaginar dada a presença de dois membros do grupo neste disco. No entanto, a plasticidade de algumas faixas soa um pouco decepcionante para quem esperava algo realmente novo em Na Medida do Impossível. Contido e rígido, o trabalho tenta passar um sentimento que nunca vem – como a sua capa japonesa e cheia de neve, atmosferas que não são nunca sentidas aqui. Com lugar cativo ao público que já admira o seu trabalho, Fernanda Takai disperdiça de forma conservadora a chance de trazer algo realmente original além do seu Pop usual.

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BOM PARA QUEM OUVE: Juçara Marçal, Leo Cavalcanti, SILVA
MARCADORES: MPB, Pop

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.