Resenhas

G.Love And Special Sauce – Sugar

Experiente banda norte-americana mistura estilos diversos em um disco que não passa de “razoável”

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Ano: 2014
Selo: Brushfire/Republic
# Faixas: 14
Estilos: Indie, Rap Alternativo, Rock Alternativo
Duração: 45:05
Nota: 2.5
Produção: Ryan Hadlock

A música Pop é um constante exercício de reinterpretação, que se vale do mecanismo de reempacotar sonoridades mais antigas, revestí-las com alguma tintura atual e “criar o novo” para toda uma estrutura de formadores de opinião e o público em geral. Durante os anos 1990, muita gente pensava que alguns artistas dominavam proficuamente alguma malandragem musical, com obras que misturavam “tudo ao mesmo tempo”, com o uso esperto de alguma tintura Grunge (era a moda na época) com pitadas de Blues, chorinhos de Rap e gotículas de R&B, tudo junto numa embalagem descolete e cool, de alguma cidade bem urbanizada da América, para dar a impressão de gente que veio das ruas, foi expulsa de colégios mas, dotados de faces branquíssimas e berço de classe média, espelhava as condições ideais para o surgimento de ídolos para as paredes dos quartos das moçoilas adolescentes. A parte musical, idem, aparentava muito e entregava pouco. Nativa da Filadélfia, G.Love and Special Sauce é muito tudo isso.

Formado em 1992 por Garrett Dutton (o próprio G.Love, guitarras e vocais), Jeff Clemens (bateria) e Jim Prescott (baixo), o trio demoraria dois anos para gravar seu primeiro disco, alvo de boas avaliações da crítica especializada naqueles tempos de MTV formando mentes. Com o passar do tempo, a música do grupo foi agregando mais gêneros, atingindo uma sonoridade parecida com uma diluição de Beck no Oceano Índico. Mesmo assim, teve público fiel, cerrou fileiras com Jack Johnson e, a partir de 2004, integrou o cast da gravadora do violeiro havaiano, Brushfire, se aproximando também dos outros integrantes da galera, Ben Harper, Donovon Frankenreiter e Matt Costa. Com o último trabalho lançado há seis anos, Sugar dá as caras com pinta de comeback.

A receita permanece a mesma, como se fosse um restaurante musical a quilo. A primeira canção, Come Up Man surge com sample de guitarra Blues rural estilizada e bateria de lata, em meio a vocais com “credibilidade de rua”, movidos a Rap e Hip-Hop de araque. Nite Life é canção com guitarras Reggae e intervenções de harmônica em meio a andamento banal.

Good Life decalca algo da introdução da melhor música de Red Hot Chili Peppers, Soul To Squeeze, para desaguar numa mistura sem forma de gaita Blues de branco, guitarras e baixos que tentam ser curvilíneos mas que causariam riso extremo em bons instrumentistas negões. Nothing Quite Else Like Home tira sarro com o riff ancestral de Smoke On The Water (Deep Purple) e envereda novamente para um desses híbridos de todos os estilos, todos empalidecidos, com a irritante guitarra Blues rural novamente presente. Smokin’ Blues, logo em seguida, é instrumental e nada nas mesmas águas musicais sem qualquer novidade. A faixa título até que tenta se valer de um timbre diferente de guitarra, mas logo cai novamente no mix de estilos, simultâneos, com levadinha inteligente de Rock mas com o devido tempero de firulas nos teclados e vocais com a impressão de estar numa reunião de manos da periferia mas que deve estar acontecendo no mais asséptico dos ambientes.

Weekend Dance #2 é a tentativa de adicionar algum elemento Soul/Funk na mistura, mas qualquer boa vontade é sepultada pela capacidade ímpar de banalização dos estilos sob a mão pesadíssima da produção. Mais do mesmo em Saturday Night mas algo diferente e surpreendente surge com One Night Romance, que tem vocais de Kristy Lee e ambiência de alguma canção R&B old school do fim dos anos 1960 sem qualquer interferência grave do poder banalizante do grupo. Outra exceção louvável é Windshield Wipers, lenta, climática e com andamento pontuado por baixo e guitarra esparsa. Cheating Heart traz samples de cordas mas entra ladeira abaixo na lenga lenga vocal com ares malacos de araque. Too Much Month e Run For Me são Blues e Soul na medida certa para quem parou de ouvir One Direction ontem e o encerramento com Bad Girl Baby Blues, com participação de Ben Harper, tem mais estofo e profundidade agrária, no sentido Blues do termo, que qualquer outra canção do disco.

Sugar é mais um disco de G.Love na mesma seara de sempre, diluidor, puxado para tons pastéis, limpinho e feito sob medida para ser ouvido em segurança, sobre uma rede de segurança. Há momentos de competência, algumas boas sacadas de produção, mas, dentre as catorze faixas, apenas duas ultrapassam o status de “razoável”. Pouco, não acham?

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.