Resenhas

Haim – Days Are Gone

Empolgante do começo ao fim, estreia das irmãs é um dos grandes discos Pop de 2013 e resultado de muita atitude e uma excelente educação musical

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Ano: 2013
Selo: Universal Music
# Faixas: 11
Estilos: Power Pop, Guitar Pop, Soft Rock
Duração: 44:19
Nota: 4.5
Produção: Ariel Rechtshaid
SoundCloud: /tracks/78796179
Itunes: http://clk.tradedoubler.com/click?p=214843&a=2184158&url=https%3A%2F%2Fitunes.apple.com%2Fbr%2Falbum%2Fdays-are-gone%2Fid68

Identificação e representação são conceitos que ajudam bastante no estabelecimento da cultura Pop. Saber se isso é um reflexo da sociedade em que está inserida, ou se é um fator de influência para o comportamento daquela população seria quase uma discussão no nível do “ovo ou galinha”, caso não houvese um consenso de que ambos os processos acontecem meio que simultaneamente. Esse fenômeno é um dos grandes fatores que contribuíram para o sucesso das meninas do trio Haim, uma boa banda que apareceu no momento certo, ao lado de e para as pessoas certas.

Foi o conjunto da obra que potencializou o alcance do som das irmãs. Garotas bonitas, estilosas, passeando em todos os sentidos – música, figurino, temáticas, clipes – entre o retrô e o luxo contemporâneo, aparentando independência mas sempre destacando o fator familiar de sua educação musical, falando de temas cotidianos como amor, seguir seus sonhos, mais um pouco de amor e conseguindo estar próximas de nomes como Julian Casablancas, Phoenix, Vampire Weekend, Jay-Z e Mumford & Sons, que demonstram com justiça sua admiração por elas.

Todas essas temáticas e fatores podem parecer triviais para a maioria, mas são de fácil identificação para o público que compartilha da mesma faixa etária que elas, entre os 20 e 27, 28 anos. Mas o trunfo mesmo está na música, o principal fator de união entre quem se sente representado por tudo isso e quem não, mas foi fisgado pelo som potente, grudento como um grande hit deve ser e exalando as melhores influências possíveis do Soft-Rock dos anos 70 e 80, principalmente Fleetwood Mac e a carreira solo de Stevie Nicks, com quem são frequentemente comparadas, misturando um ar mais contemporâneo com a produção de Ariel Rechtshaid (Vampire Weekend, Usher, Sky Ferreira).

Falling e Forever abrem o álbum. A primeira talvez seja o maior resumo de toda a obra, já apresentando as harmonias vocais, o uso de elementos mais sintéticos para compor o clima da canção e a percussão marcada, traço forte de seu produtor. A letra é uma boa introdução ao processo de composição delas, com um tema cotidiano, nesse caso a superação e persistir em seus sonhos mesmo com as adversidades, um tema clichê, mas passado de uma maneira inteligente, simples e direta, totalmente coerente com a melodia empolgante e pra cima. A segunda está inserida no mesmo contexto, mas mostrando como elas conseguem variar dentro da mesma estética. Forever é mais potente, com a percussão mais marcada e uma das que mais justificam a comparação com Fleetwood Mac, banda da qual não teme em assumir a influência, tocando frequentemente covers de Hold Me e Oh Well em seus shows. Forever também introduz os ganchos infinitos que nos empolgam ao decorrer de todo o álbum.

A partir daí, o som já foi apresentado e elas mostrarão o quanto conseguem fazer de tudo, um hit atrás do outro, impressionando sem dó, mas sem nenhuma pretensão de serem algo além de garotas muito bem educadas musicalmente querendo tocar juntas, se divertir e quem sabe conseguirem um lugar confortável entre os os músicos mais legais por aí.

The Wire é um Guitar-Pop menos sintético, mais cru que as faixas anteriores, mas com uma das letras que mais representam a temática dos relacionamentos que domina a obra. Destaque para o quase mantra “Always keep your heart locked tight/ Don’t let your mind retire” que povoaria uma boa quantidade de nicks do MSN há alguns anos. If I Could Change Your Mind, Don’t Save Me e Running If You Call My Name continuam a mesma proposta já apresentada, cada um com seu elemento particular de destaque e identificação, mas todas igualmente boas, empolgantes, dançantes com refrões que pegam, não importa o quanto tente esquecê-los.

As novidades ficam por conta de Honey & I, com seu princípio de baladinha Country romântica, mas que depois engata na empolgação característica do trio. My Song 5 que surpreende muito com riffs de guitarra pesados, vozes abafadas com eco, mostrando um momento de liberdade criativa grande e um toque nítido de Ariel Rechtshaid em um de seus grandes trabalhos. Go Slow é uma delícia, a que mais brinca com os vocais, deixando os instrumentos em segundo plano, apenas acompanhando e potencializando as vozes. Outra muito interessante é a faixa título que foi co-escrita por Jessie Ware e conta com alguns efeitos sonoros inusitados, guitarras espertas no fundo e se destaca pelo refrão grandioso com vozes dobradas lembrando um grande coral. Até mesmo Let Me Go, uma das mais esquecíveis do disco, tem seu lugar, mostrando definitivamente a qualidade delas como instrumentistas, deixando ainda mais claro o que estão fazendo.

Days Are Gone é, portanto, um ótimo apanhado de faixas, em que não foi necessário encontrar um grande conceito ou proposta que as una, bastando a própria personalidade, qualidade técnica e familiaridade com a boa música para impressionar com faixas divertidas, empolgantes e inteligentemente despretensiosas. Julgá-las no formato de álbum parece uma injustiça após conviver durante um ano com alguns dos singles mais potentes lançados recentemente, shows que deixaram todos boquiabertos e um carisma raro que faz todo esse som redondinho parecer brincadeira de criança.

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BOM PARA QUEM OUVE: The Preatures, Fleetwood Mac, Feist
ARTISTA: Haim

Autor:

Nerd de música e fundador do Monkeybuzz.