Resenhas

Half Waif – Mythopoetics

Sensível e consistente, quinto disco do projeto de Nandi Rose usa peso dos sintetizadores a favor da intensidade autoral de suas canções

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Ano: 2021
Selo: ANTI
# Faixas: 12
Estilos: Indie, Alternativo
Duração: 56'
Produção: Zubin Hensler

Já que toda obra é um reflexo de seu tempo, ainda que sem intenção, fico feliz em apontar Mythopoetics como exemplo da música Eletrônica, digamos, mais “pesada” sendo usada com tanta naturalidade dentro de um campo autoral. É um movimento que, se esteve em desenvolvimento por tanto tempo nas últimas décadas, já chegou a outro patamar, com batidas de grande intensidade tendo a mesma função dramática dos outros timbres no arranjo.

Pode parecer até óbvio para alguns, mas não usei a palavra “naturalidade” à toa. É que este quinto álbum de Nandi Rose Plunkett sob o nome Half Waif traz composições baseadas tanto no piano, quanto nos beats para amparar aquilo que a canção autoral, pertencente ao universo Indie ou não, tem como uma de suas principais características: apresentar todos os seus elementos em função da letra e da interpretação vocal.

Mythopoetics é um trabalho quintessencial se encararmos essas direções como um “formato”. Nele, até os mais simples versos de Nandi ganham dimensões estratosféricas com os preenchimentos sonoros dos synths e programações. É o caso de “Orange Blossoms” e a repetição de “I don’t wanna be here”, para a qual o instrumental eletrônico tão carregado dá espaço para o piano surgir suavemente e reforçar o intimismo da interpretação.

Dá para facilmente imaginar que essa composição e todas as suas colegas de repertório funcionam muito bem apenas em voz e piano – não à toa, Nandi inicia e conclui o álbum dessa maneira. Mas trazer os beats para a base de seus arranjos confere uma intensidade emotiva consistente e eficaz, que nunca chega a ser, entretanto, melodramática ou exagerada.

Esse recurso ajuda também a camuflar (e, com isso, engrandecer) faixas com estrutura bastante Pop, como “Fortress”, embora alguns dos melhores momentos da obra sejam aqueles nos quais a artista se permite flertar com esse universo (“Party’s Over”, “Horse Racing”), em uma dinâmica que faz por merecer que Half Waif seja escalada para as mais diversas trilhas sonoras na próxima temporada.

Consistente em sua proposta estética e sensivelmente humano, Mythopoetics se destaca na discografia da artista ao mesmo tempo em que se insere na produção atual como um disco próprio da categoria Singer-Songwriter neste (ainda) início de século 21. Não se surpreenda se ele for citado no futuro como um bom exemplo de música autoral, emotiva e catártica em nosso tempo.

(Mythopoetics em uma faixa: “Orange Blossoms”)

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ARTISTA: Half Waif

Autor:

Comunicador, arteiro, crítico e cafeínado.