Resenhas

Hauschka – A NDO CY EP

Enquanto caminha por mundos destruídos, compositor nos entrega mais uma obra madura

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Ano: 2015
Selo: Temporary Residence Ltd.
# Faixas: 7
Estilos: Instrumental, Eletrônico
Duração: 40:00
Nota: 3.5
Produção: Hauschka

Gosto da música que te transporta para outros lugares sem utilizar nenhuma palavra. Se não existir imposição verbal, podemos somente entender e sentir composições a partir de suas qualidades únicas. Muitas vezes, o transporte pode ser intencional – trilhas sonoras são feitas para intensificar imagens a partir de músicas, ou mesmo criar paisagens imaginárias para filmes jamais feitos. A NDO CY EP é o conto perdido que o compositor Hauschka não conseguiu contar no ano passado em seu elogiado disco Abandoned City.

A partir de texturas espessas e um piano igualmente denso, o músico entrou em um reino de terras abandonadas pelos humanos – prédios e locais desfigurados pela ação da natureza e invisíveis ao olhos de agentes econômicos. Antes do ouvinte entrar na obra, uma cidade pode vir ao seu imaginário: Detroit. Poucos lugares no mundo sofreram tanto pelo abandono quanto a capital do estado de Michigan e a trilha de Hauschka muitas vezes nos conta a transformação de cidades como essa.

El Hotel Del Saito é um misto de assombrações fantasmagóricas emuladas por ruídos, música Eletrônica intermitente e um piano frágil. Cada peça da música é visualizada como uma fotografia quase apagada ou um tecido machucado de um antigo hotel à beira de um centro histórico. Desfigurado, o local é carregado de nostalgia e melancolia, sensações impostas pelo belíssimo piano do compostior: a chave essencial da obra para que os barulhos e texturas realmente façam sentido. Hashima Island segue o mesmo conceito e poderia muito bem ser uma das composições do filme A Origem – imagine a famosa cena em que mundos são destruídos e construídos diante dos nossos olhos para entender a analogia.

Varosha e North Border Island são os grandes momentos do EP e seguem a estética de complexos mundos imaginários construídos a partir de uma figura estática, no caso as regiões esquecidas pela humanidade. O que acontecia em cada um desses pontos distantes é recontado a partir de pontos congruentes de música – o piano distante e tenso, as chaves e barulhos feitos de forma eletrônica e o gosto por atmosferas imersivas e quase sempre tristes. No entanto, Varosha é o único ponto fora da curva ao nos alegrar por completo.

Como acompanhamento de seu disco anterior, A NDO CY é um EP exemplar e absorvente, e traz ainda algumas surpresas, como o excelente remix de Agdam feito por Devendra Banhart e a recrição de Stromness de Eluvium. Ambos são exemplos de como a obra de Hauschka é multifuncional e sensorial – cada música pode ser transformada e reimaginada para que novas histórias possam ser contadas.

O disco é, na verdade, um grande ponto de partida para que o compositor seja conhecido por aqueles que nunca ouviram falar de sua extensa obra. A densidade que permeia cada composição fragmentada nos permite alcançar um grau de relatividade impressionante – nos sentimos membros desses prédios e lugares abandonados ao construirmos, de forma subjetiva, memórias de reinos que nunca estivemos, mas entendemos nostalgiacamente.

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BOM PARA QUEM OUVE: Aki Onda, Ben Frost, Nicolas Jaar
ARTISTA: Hauschka

Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.