Resenhas

Julie Doiron – I Thought of You

Novo disco de ícone do Indie Rock canadense abre uma pequena janela para seu mundo interno, trazendo referências de diferentes períodos de sua carreira

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Ano: 2021
Selo: You've Changed Records
# Faixas: 13
Estilos: Indie Rock, Rock Alternativo
Duração: 40'
Produção: Daniel Romano e Julie Doiron

 

Julie Doiron é uma daquelas artistas que estava no lugar certo e na hora certa – não que isso vincule seu sucesso a uma casualidade do destino. Muito pelo contrário. Começando sua carreira com 18 anos, Julie sempre esteve imersa no cenário Indie underground do começo dos anos 1990, percorrendo diferentes bandas e absorvendo a essência única e autêntica do Rock Alternativo. Sua primeira banda, Eric’s Trip (batizada em homenagem à música de mesmo nome de Sonic Youth), foi uma ensaio por entre fitas cassetes e gravações amadoras, trazendo composições confessionais sobre os dramas da juventude, porém traduzidos em timbres estridentes de guitarras e acordes melancólicos e potentes.

Apesar de conservar um lado amador, a banda atravessou duas décadas (entre hiatos e pausas), tornando-se um dos nomes mais respeitáveis da cena Indie canadense daquele período. Entretanto, Julie não se contentou com apenas este projeto e continuou se envolvendo ainda mais com outras bandas, como a enérgica Julie and The Wrong Boys, além de participações em registros de artistas como Mount Eerie e Okkervil River. Assim, é possível notar que Julie sempre se conduziu a estar nos lugares de efervescência cultural e tudo isso que juntou ao longo de 20 anos de carreira certamente precisava de um espaço para ser plenamente expresso. É aí que entram os registros solo de sua carreira.

Seus discos solos merecem um foco especial, pois parece que são neles que Julie revela seu potencial: a absorção de tudo o que coletou durante sua carreira. Os registros não são limitados ao universo do Indie Rock, mas pelos gêneros nos quais a artista sente que são pontuais para expressar suas verdades – seja em seu diário roqueiro de pé-na-bunda Will You Still Love Me (1999) ou na suavidade de canções Folk cantadas em espanhol e lançadas em uma compilação de três volumes chamada Julie Doiron Canta en Español. Não só há uma grande variedade de gênero, mas o intervalo de tempo entre os registros também é uma particularidade de sua carreira solo, pois eles parecem vir por uma demanda interna e não por contratos de gravadora. Há intervalos de meses, anos e, recentemente, quase uma década entre seus registros solos. Desde seu último disco autoral, So Many Days (2012), lá se vão nove anos e, agora, Julie toma este momento para organizar tudo o que viveu, trazendo seu novo respiro.

I Thought of You é um trabalho que se aproxima mais daqueles primeiros anos do Indie Rock canadense, conservando os acordes simples de guitarra bem como letras que parecem ser tiradas diretamente de um caderno rabiscado durante as aulas do colegial. Mas, ao mesmo tempo em que há uma parcela de saudosismo, há uma vontade de seguir em frente, maturando todo aprendizado advindo dos anos em projetos diferentes. Um arranjo mais Folk aqui, um flerte com um sintetizador ali e até mesmo um desapego com as sonoridades Lo-Fi da década DIY. Cada um desses elementos pincela uma maturidade clara pelas 13 canções. “Thought of You”, por exemplo, é uma composição que anda no meio fio entre o Rock adolescentesco e o Indie Rock do final dos 2000, mais pautado na organização dos timbres do que em uma epifania sonora e caótica. “How Can We?”, por sua vez, traz doces melodias que digerem o término de um relacionamento, fazendo-o parecer uma tarefa tranquila e suave. Sua habilidade como cantora também ganha evidência na envolvente “The Letter We Sent”, tomando diferentes timbres para cada momento da música – uma verdadeira montanha-russa de emoções. Muitas vezes, os arranjos mais cheios dão vez ao formato voz e violão, como em “Back To The Water”, colocando em primeiro plano um ambiente no qual Julie sempre esteve confortável – como se apenas precisasse disso para poder imergir em si mesma.

O novo registro de Julie Doiron pode não trazer uma inventividade absurda, mas ele carrega a característica mais marcante de sua obra: o tempo. O disco tem o tempo que Julie precisa. Nove anos separam este de seu último registro autoral solo, evidenciando mais uma vez que sua arte parte sempre e unicamente de uma demanda interna. A nós, resta apreciar esta pequena janela que foi aberta para o mundo de Julie, uma que não sabemos quando será aberta novamente, mas que, por ora, é exatamente do que precisamos – um momento de respiro.

(I Thought Of You em uma faixa: “How Can We?”)

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ARTISTA: Julie Doiron

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.