Resenhas

Kacey Musgraves – star-crossed

Novo disco da vencedora do Grammy toca em temas intensos com palavras simples, em uma exploração sonora menos tradicional

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Ano: 2021
Selo: UMG Recordings
# Faixas: 15
Estilos: Folk, Pop
Duração: 47'
Produção: Ian Fitchuk, Daniel Tashian e Kacey Musgraves

Os últimos três anos foram uma loucura para Kacey Musgraves. De uma carreira consolidada dentro da específica cena Country-Folk do sul dos Estados Unidos, a cantora passou ao status de uma celebridade global, muito além das pequenas cidades americanas. Um dos pontos decisivos para este grande alcance vem do sucesso de crítica e público de seu terceiro disco, Golden Hour, vencedor do Grammy na categoria Álbum do Ano de 2018. O impulso tomado pelo êxito deste álbum foi responsável por abrir novos caminhos para Kacey, saindo da figura típica da garota da cidade pequena com seu violão e mergulhando nos labirintos do Pop mundial – principalmente representado pelo hit “Easy”, parceria com Troye Sivan e Mark Ronson. Apesar de todo esse caminho e de ter abandonado certos cacoetes do Folk, o gênero ainda permanece como uma espécie de essência de sua personalidade. Ela pode ter levado as coisas para um lado mais Pop, mas certamente conservou consigo sua marca principal: a sinceridade.

Golden Hour marcou 2018 porque o Folk resgatou um protagonismo, principalmente em um período em que o Hip Hop e o Pop/EDM dominam as paradas – mas não somente por isso. Kacey conseguiu construir uma narrativa marcada pela simplicidade e um tema altamente relacionável: uma grande paixão. A hora dourada da cantora e compositora traz um tema tão explorado para um âmbito do cotidiano. Para ela, não é preciso traduzir este sentimento em metáforas e métricas complicadas – aquilo que é tão grandioso pode ser dito com palavras simples. Isto não é uma particularidade exclusiva do disco de 2018, mas do estilo de composição dela. Assim, se há algum tema complicado ou de difícil processamento emocional, Kacey Musgrave é capaz de traduzir de maneira autêntica e descomplicada. Mesmo que aquela paixão narrada há três anos tenha se rompido. É sobre isso que ela se debruça neste novo momento de sua carreira.

Star-crossed já deixa claro sua temática na capa do disco: um coração partido. Neste trabalho, Kacey procura usar seu gênio criativo para processar o fim de um relacionamento. Não apenas isso, mas passar por este evento durante uma pandemia mundial, em que o isolamento tem sido uma norma, e não uma opção. Em entrevista para Apple Music, Kacey relata que este período foi essencial para compreender como em momentos em que lidamos com episódios difíceis, há sempre uma tentativa de se esquivar do enfrentamento. Assim, a pandemia não permitiu que ela se esquecesse disso por meio de turnês grandiosas pelo mundo (que inclusive ia passar pelo Brasil em março de 2020). O isolamento colocou Kacey de frente com ela mesmo, e neste encontro, surgiram tantos temas e possibilidades que, quando imaginou a necessidade de fazer um novo trabalho, ela já tinha 39 canções prontas.

O disco começa com a faixa que dá nome ao disco, uma espécie de prólogo shakespeariano que apresenta os personagens, cenário e contexto de toda a história por trás do disco. “simple times”, um dos singles, trabalha com esses timbres menos Folk, ao mesmo tempo em que se apropria dos arranjos típicos do gênero se tornando, surpreendentemente, uma joia Pop. “breadwinner” traz o desgaste amoroso ao longo do tempo, sobre uma corda bamba entre doses de Chillwave e Pop Rock. Como boa singer-songwriter, Kacey traz também as boas e velhas baladas do coração partido, tendo como representante mais dilacerante a comovente “hookup scene”. Até mesmo o espanhol ganha espaço neste trabalho, a partir do violão choroso de “gracias a la vida” que acompanha não apenas o talento de Kacey como compositora, mas uma vocação de atriz, atuando toda a sua dor.

Em um novo território, Kacey faz um retorno a um tema que é consagrado dentro do Folk: canções de coração partido. O que poderia ser uma oportunidade para reafirmar as sonoridades características do gênero, tal qual Golden Hour fez, revela-se um novo (e mais ambicioso) caminho para a cantora e compositora. O disco ganha um tom quase psicodélico, voando além do violão de aço e nylon e pousando em sintetizadores que beiram o experimental. O disco, assim, vai em uma direção diferente de seu antecessor, mas impulsiona ainda mais as composições e letras de Kacey, trazendo toda a digestão emocional da artista por este novo território. Digestão esta que está longe de ser apenas um lamento, mas um retrato de como estar vulnerável pode, também, representar crescimento.

(star-crossed em uma faixa: “simple times”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.