Resenhas

Kele Okereke – Fatherland

Terceiro disco solo de ex-Bloc Party é confessional e maduro

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Ano: 2017
Selo: BMG
# Faixas: 13
Estilos: Folk Alternativo, Rock Alternativo
Duração: 44:54
Nota: 3.5
Produção: Kele Okereke

Engraçadas as conexões que a mente faz. Ouvindo este terceiro disco solo de Kele Okereke, me flagrei lembrando de um verso de O Poeta Está Vivo, canção gravada em 1989 pelo grupo Barão Vermelho: “Todo mundo é parecido quando sente dor”. Digo isso porque Fatherland é um desses trabalhos em que o autor mostra ao público que amadureceu e o faz isso através de uma postura séria, contundente e sofrida. Vejam, não desmereço nem o álbum, nem Kele, certamente um bom e engajado cantor, um dos melhores de sua geração. A opção dele por um disco “sóbrio” é legítima e o produto é autêntico o bastante para ganhar carinho dos fãs. De qualquer maneira, gente, pelo menos por enquanto, foi-se o Kele moleque, o Kele de várzea, maroto, festeiro e lascivo, pelo menos em sua carreira solo, pós-Bloc Party e emerge o Kele pai, o Kele adulto, o Kele sério. Só nos resta dar ouvidos.

Fatherland é um disco que fala da vida cotidiana. Sobre envelhecer, sobre ser pai, sobre ter relacionamentos emocionais e vê-los sob risco. É bonito, bem feito, bem gravado e com arranjos que colocam o cantor bem distante de seus contemporâneos, abraçando o idioma do Folk mais introvertido, lembrando Elliott Smith em alguns momentos, mas sem a mesma, digamos, “verdade sentimental” que Smith deixava transparecer em suas canções. Kele ainda está bem longe dos extremos emocionais que Elliott experimentou, mas seu movimento em direção a um disco com canções literais sobre sua vida, mostram que ele tem noção do poder da música como veículo de transmissão de verdades, digamos, mais banais. Saem as ferveções noturnas e aditivadas, entram os boletos pra pagar, as fraldas pra trocar e o próximo para amar. Não parece, mas é bastante complexo, pessoal.

Um dos méritos de Fatherland está, justamente, na capacidade que Okereke tem como compositor e cantor. Ele sempre foi um cara acima da média de sua geração e isso se mantém por aqui. Há alguns momentos muito bonitos por aqui, especialmente na faixa em homenagem a sua filha, Savannah, que conjEra eletrônica percussiva e cordas acústicas e já abre com um verso arrebatador:” Oh, Savannah, you like like your mother, but I didn’t know her so well”, lembrando que Kele é gay assumido e adotou a criança. Este exemplo mostra o nível de sinceridade que o cantor confere ao espectro lírico que toma conta do álbum. É tudo de verdade, coração na mão, olhos nos olhos. Isso é bem legal, especialmente em tempos fugidios como os nossos. Mas essa não é a única canção digna de nota por aqui.

Streets Been Talkin’ é um pequeno inventário da passagem do tempo e o que isso pode fazer conosco, cheia de adornos instrumentais, desde percussões e metais, chegando a singelas flautas. You Keep On Whispering His Name é sobre amor e seus desdobramentos, enquanto a belíssima Yemaya faz menção à deusa negra do mar, conhecida aqui como Yemanjá, sempre lembrando que “Kele” é abreviação de Kelechukwo e ele tem ascendência nigeriana, povo que foi levado em grandes quantidades para trabalhar nas lavouras do Caribe Inglês e da América do Norte. A canção tem violões atmosféricos e um arranjo que privilegia o alcance/emoção da voz de Kele, um dos momentos mais belos do disco. Além delas, Versions Of Us, traz a participação especial de Corinne Bailey Rae, que se mostra uma das grandes cantoras em atividade no segmento Soul/Folk, além de Grounds For Resentment, com os teclados de Olly Alexander, com uma proposta de inventário emocional sem maquiagens.

Quem é fã da obra de Okereke, seja solo, seja à frente de Bloc Party, verá neste disco uma continuidade da persona engajada, sincera e amadurecida. Fatherland é um disco verdadeiro e cativante.

(Fatherland em uma música: Yemaya)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.