Lenine – Carbono

Novo álbum harmoniza tradição e modernidade com resultado sensacional

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Ano: 2015
Selo: Universal
# Faixas: 11
Estilos: Rock, MPB, Eletrônico
Duração: 39:34
Nota: 4.5
Produção: Jr. Tolstoi, Lenine, Bruno Giorgio

A carreira de Lenine tem uma proposta central, a de expressar uma brasilidade latente e cheia de referenciais em uma forma global e moderníssima. Se olharmos para trás, veremos que a história do Brasil tem, pelo menos, dois exemplos de tentativas feitas com essa mesma intenção, a Semana de Arte Moderna (1922) e a Tropicália (meados dos anos 1960). O tema sempre foi espinhoso e capaz de gerar discussões inflamadas mas, por alguma razão peculiar, a obra do cantor e compositor pernambucano sempre se manteve no rumo, com calma e maturação necessárias para atingir seu objetivo. Se o álbum anterior, o impressionante Chão, de 2011, mostrava que essa música brasileira mundial havia chegado, este novíssimo Carbono comprova e cristaliza tudo.

Lenine tem igual carinho por três fontes inspiradoras: a da música brasileira (pernambucana) imemorial, na qual estão contidos ritmos como Maracatu, Côco, Frevo; o Rock, em sua apropriação brasileira (tropicalista e nordestina) e a Eletrônica, fruto do tempo em que vivemos e capaz de se tornar ferramenta de expressão tão poderosa quanto qualquer outra. O equilíbrio entre essas três vertentes fornece o caldo na medida certa. Com produção de Bruno Giorgi (filho de Lenine), do próprio e do guitarrista Jr.Tolstoi, Carbono tem um impressionante painel sonoro, erguido no terreno do confronto entre tradição e modernidade, tendo no choque de opostos a sua mola propulsora maior e mostrando um Brasil que não vemos sempre por aí, que pode ser absolutamente inédito para descrentes e descontentes.

As três primeiras canções, Castanho, O Impossível Vem Pra Ficar e a impressionante A Meia-Noite Dos Tambores Silenciosos (com participação do maestro Letieres Leite e sua Orkestra Rumpilezz) servem como uma sucessão de cacetadas de descompressão, obrigando o ouvinte a deixar toda a poluição sonora/midiática de lado, jogando luz sobre ritmos e nuances pantaneiras, simplicidade instrumental que aponta pro futuro e lembranças de festas ocultas na tradição do carnaval pernambucano. Tudo isso é urdido pela banda que acompanha Lenine no palco, com o baterista Pantico Rocha e o baixista Guila ao lado dos próprios Tolstoi e Bruno, dando espaço para uma nova sonoridade tomar conta, deixando de lado o minimalismo eletrônico que permeou o álbum anterior. Funciona perfeitamente.

A cadenciada Cupim de Ferro, composta e executada com Nação Zumbi, tem combustível de sobra para crescer ao vivo, com destaque para a excelente bateria de Pupilo e a alternância de vocais entre Lenine e Jorge Du Peixe. A boa A Causa e o Pó tem percussões potentes e andamento primo-irmão do Reggae, com letra de outro filho do cantor, João Cavalcanti. Quede Água confronta a realidade do mundo atual com o amargor do canto ancestral contra a seca nordestina e num impressionante verso, “Meu automóvel novo mal se move, enquanto no duro barro do chão rachado da represa, onde não chove, surgem carcaças de carros”, globaliza essa noção para as próximas gerações, cortesia da pena inspiradíssima de Carlos Rennó, parceiro habitual. O violão característico, outro ítem importante do arsenal lenineano, surge soberano em Simples Assim, enquanto Quem Leva A Vida Sou Eu é uma suingada espécie de resposta ao sucesso de Zeca Pagodinho. O Universo Na Cabeça Do Alfinete é lenta e contemplativa, não entregando o ouro sobre o final inesperado do álbum, com o surpreendente e nervoso instrumental Undo.

Carbono é um alento para ouvidos cansados de procurar algo com qualidade e relevância no terreno da música mainstream nacional, certamente será pouco executado, não entrará em trilha sonora de novela ou estampará alguma peça publicitária de gosto duvidoso, infelizmente, os canais ainda responsáveis pela divulgação de um trabalho no país. É um disco destinado a passar no teste do tempo, ao cuidado e a várias audições de hoje em diante. Um clássico moderno.

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BOM PARA QUEM OUVE: Nação Zumbi, Otto, Caetano Veloso
ARTISTA: Lenine
MARCADORES: Eletrônico, MPB, Ouça, Rock

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.