Resenhas

Lianne La Havas – Lianne La Havas

Sensível e musicalmente arrebatador, novo trabalho é o momento mais inspirado da carreira da britânica

305 total views, no views today

Ano: 2020
Selo: Warner Records UK/Nonesuch
# Faixas: 12
Estilos: Neo Soul, R&B, Folk
Duração: 51'
Produção: Lianne La Havas e Matt Hales

Términos de relacionamento são temas dos mais célebres e presentes em discos da cultura Pop moderna. Expressos em diversos graus, exemplos não faltam: desde o lamento hipster choroso de Bon Iver, em For Emma, Forever Ago (2007) até a bíblia da sofrência adolescente Pop em Melodrama (2017), de Lorde. Apesar de haver alguma apressada generalização e um complexo parnasiano de desconsiderar tais temas como não-dignos de uma verdadeira obra de arte, o término representa um momento de intensa vulnerabilidade, e vicissitudes fazem a sensibilidade aflorar – muitas vezes, de maneira inspirada. A emoção vem à tona e exige habilidade e pés firmes para domar a avalanche. O que não é sempre possível e, assim, surge a catarse fulminante. E quando falamos desse dilúvio sentimental, Lianne La Havas tem muito a nos ensinar.

Durante a carreira da compositora, multi-instrumentista e produtora inglesa, presenciamos momentos em que a emoção vem ao nosso encontro. Sua personalidade é transmitida por meio da suavidade e precisão da guitarra. Lianne faz a guitarra gritar, rir, chorar, viver e morrer. O disco Blood (2015) era o exemplo mais claro até então de como ela é capaz de, com o instrumento de seis cordas, fazer exatamente o que precisava para comunicar ao ouvinte toda dor e alegria. Entretanto, cinco anos depois, ela nos entrega Lianne La Havas, disco que não tem esse nome à toa e que redefine a profundidade de seu mergulho.

Apesar do término de seu relacionamento ser uma das faíscas criativas do trabalho, este vai além das credenciais de “disco fossa”. Lianne La Havas é uma oportunidade de pagar uma dívida pessoal. Ela chegou a comentar que Blood não havia soado exatamente como ela queria e, por isso, desta vez, o processo de composição e produção respeitaram o tempo que ela precisava. Um tempo que diz respeito tanto à produção formal do disco quanto ao processo emocional que ele transparece. Em 12 faixas, sentimos uma Lianne mais crua e vulnerável, sem excessos e que, justamente por nos mostrar as coisas como realmente são, constrói um trabalho tão poderoso. Seja na voz ou no manejo da guitarra, ela expõe sua alma e seus labirintos sinuosos. Um disco de Soul, afinal.

O álbum divide-se em três atos sobre o término de um relacionamento, mas há antes uma espécie de prólogo. “Bittersweet – Full Lenght” é o ponto de partida – Lianne, uma guitarra lamuriosa e um canto doloroso e belo. Depois do cartão de visita, o primeiro ato do disco se inicia com a apaixonante “Read My Mind”, faixa que expressa, sem economias, a sensação de queda livre do amor e de entrega total, com texturas esparsas e grandiosas. “Can’t Fight”, por sua vez, é dada à malemolência e ao suingue, uma dança inspirada pelas regras da paixão.

O segundo momento do disco parece se iniciar entre “Paper Thin” e o interlúdio “Out Of Your Mind” – as fragilidades começam a preponderar. Em vez de expulsá-las, Lianne as sente em toda sua plenitude. Nestes momentos, estão as melhores performances vocais do disco, que conduzem o ouvinte por imperfeições propositais e técnica fascinante. Lianne pega emprestado “Weird Fishes”, do Radiohead, retrabalhando-a a favor de sua narrativa – ela já havia feito algo parecido há um tempo, com “I Say A Little Prayer For You”, de Dione Warrick e popular na voz de Aretha Franklin.

O último momento é o auge emocional, a hora das investigações mais intensas. Temos metáforas ricas, como em “Sour Flower”, em que ela compara sua angústia ao ciclo natural das plantas. O reconhecimento da determinação e da garra no enfrentamento ganha forma em “Courage”, introspectiva balada com toques de sci-fi, emprestando o infinito das estrelas para reivindicar sua coragem. E, por fim, o disco compreende seu sentido total com uma versão levemente modificada de “Bittersweet”. Um percurso que, na realidade, é um ciclo. As coisas voltam aos primórdios, contudo, certamente, já não são mais as mesmas.

Lianne La Havas é um álbum que manifesta transformação. O momento de se recolher para pensar – e, em seguida, de se colocar à mostra para o mundo. A transformação de Lianne transborda para dentro de nós e ter a oportunidade de beber de uma fonte tão rica – musical e liricamente – é um verdadeiro privilégio. É o momento mais catártico e poderoso de sua obra até o momento. Um disco sobre vitórias e derrotas, mas, principalmente, sobre, ao atravessá-las, crescer.

(Lianne La Havas em uma faixa: “Bittersweet – Full Length”)

306 total views, no views today

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.