Resenhas

Mac Miller – Circles

Produzido em parceria com Jon Brion, disco póstumo é
uma comovente carta de despedida e um doloroso lembrete de que
Mac Miller se foi cedo demais

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Ano: 2020
Selo: Warner
# Faixas: 12
Estilos: Rap, R&B, Lo-Fi
Duração: 48’
Produção: Mac Miller, Jon Brion

Desde a morte de Mac Miller em setembro de 2018, apenas dois versos inéditos do finado rapper de Pittsburgh apareceram por aí, ao menos como parte de lançamentos oficiais: em “Time”, ao lado de Free Nationals e Kali Uchis, e “That’s Life”, produção de 88 Keys que tem a participação de Sia. Até que, na segunda semana de 2020, a família de Mac anunciou Circles, seu primeiro trabalho póstumo, que chegou aos serviços de streaming no dia 17 de janeiro. O disco, produzido em parceria com o veterano Jon Brion – responsável por, além de finalizar as gravações, escolher a ordem do repertório –, é uma espécie de segunda parte de Swimming (2018), lançado por Mac pouco mais de um mês antes de morrer e que também contou com o toque de midas de Brion em mais da metade das faixas. 

Relembrar a obra de Brion, aliás, é uma boa forma de começar a falar de Circles. O americano é dono de uma produção versátil, que vai de When The Pawn… (1998), retorno estelar de Fiona Apple, à fantástica ópera rap de Kanye West, Late Registration (2005). Mas os trabalhos de Brion que mais reverberam em Circles são suas trilhas para o cinema. Em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004), Magnólia (1999) e Sinédoque (2008) estão algumas das principais trilhas sonoras assinadas por Brion. Essas harmonias minimalistas, tons atmosféricos, a melancolia e a nostalgia também se encaixaram suavemente ao astral – musical e poético – de Mac Miller durante seus últimos dias. E qual era o astral de Mac antes de morrer vítima de uma overdose (segundo consta, acidental)?

A frase que abre o disco é “Well, this is what it looks like right before you fall” (“Bom, é assim que se parece quando se está prestes a cair”), presente na faixa-título, um lindo e singelo cartão de visita, cujo instrumental, marcado por um gordo baixo, chega a remeter a Velvet Underground. Um epílogo de Swimming, Circles continua mostrando alguém aflito com o que acontece dentro de sua cabeça, “lugar” onde ele passa o dia inteiro, como canta no verso de abertura de “Good News”, primeiro single divulgado do projeto. Mas, por mais doloroso que seja escutá-lo, Circles é comovente de um jeito acolhedor e, enquanto Mac segue em círculos indo do desespero à possibilidade de redenção repetidamente, ele te estende a mão. Em certa medida, seu efeito catártico é comparável ao que discos de Elliott Smith (de quem Brion era amigo e Mac, grande fã) e livros de David Foster Wallace promovem – a autoconsciência do narrador/compositor é tão potente, as caraminholas da cabeça são expostas com tanta sinceridade e a vulnerabilidade parece chegar a um nível tão insustentável, que mergulhar nesse mundo ilumina a mente, em vez de nos jogar na escuridão. Mesmo que, tal qual Smith e Wallace, seja o mundo de alguém que infelizmente não encontrou saída.

Há até espaço para momentos mais enérgicos e típicos do Rap, como na cheia de synths “Complicated” e a brilhantemente loopada à la J Dilla “Blue Word”, mas o repertório é destacado pela introspecção e a serenidade. “Hand Me Downs”, guiado por uma certeira oitavada de guitarra, é, ao mesmo tempo, uma canção de amor e uma declaração angustiada de alguém preso em um labirinto e, por isso, incapaz de desfrutar desse amor. Ao longo do álbum, Mac parece bem mais um singer-songwriter do que um rapper, característica que ele invariavelmente mostrou ao longo de sua carreira, seja em shows acompanhado do The Internet, em aventuras pela cantoria em “Ros” ou “Come Back To Earth” ou na inesquecível performance no Tiny Desk Concert, gravada pouco antes de sua morte. Em Circles, a faceta de crooner também aparece em “Everybody”, versão de uma canção de Arthur Lee, e na beatleniana “That’s On Me”. 

Em “Once A Day”, canção que fecha o disco, ele canta “I just keep waiting for another open door to come up soon/Don’t keep it all in your head/The only place that you know nobody ever can see” (“Eu apenas fico esperando mais uma porta se abrir em breve/ Não guarde tudo dentro de sua cabeça/O único lugar que você sabe que ninguém nunca pode ver”). As portas do show biz foram se abrindo para Mac Miller de um jeito não muito convencional quando pensamos em Hip Hop. Um judeu branco nascido em Pittsburgh que desde criança era fã de Rap – como mostra o clipe de “Best Day Ever”, no qual ele, pivetinho, canta “Rappers Delight”, clássico do Sugarhill Gang, cena bem difícil de assistir depois de setembro de 2018 – e que estourou no início dos anos 2010, como um “rapper branco de festa”, descompromissado, juvenil. Mas desde que Blue Slide Park, seu primeiro disco, estreou no topo do Billboard 200, Mac vinha num constante aprimoramento artístico que se expandiu para o Soul e o R&B, motivo pelo qual tanta gente boa, de Kendrick Lamar a Rick Rubin, o admirava. A trinca antes de Circles – GO:OD AM (2015) The Divine Feminine (2016) e o próprio Swimming (2018) – mostrava um artista, rapper e multi-instrumentista em plena evolução, na mesma medida em que evidenciavam batalhas cada vez mais sofridas contra a depressão e o uso abusivo de drogas. Uma linda carta de despedida, que aquece o coração de cada fã, Circles permanecerá também como um lembrete de que Mac Miller se foi cedo demais. 

(Circles em uma faixa: “Good News”)

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ARTISTA: Mac Miller