Resenhas

Mark Kozelek – Down In The Willow Garden

Novo EP traz canções sobre morte e crônicas do cotidiano

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Ano: 2015
Selo: Caldo Verde
# Faixas: 4
Estilos: Folk, Rock Alternativo , Folk Alternativo
Duração: 20:24
Nota: 3.0
Produção: Mark Kozelek

Mark Kozelek não para. Vivendo um momento especialmente prolífico em sua carreira, o sujeito tem lançado discos, EPs, faixas soltas digitalmente pela internet, dando provas de que segue firme em sua proposta de registrar suas impressões do cotidiano das pequenas coisas. É fácil falar sobre eventos importantes das nossas vidas, da morte de alguém, da mudança de uma cidade, do fim de um relacionamento, certo? Por mais que doa, por mais que nos afete, é, digamos, tecnicamente fácil, uma vez que somos inundados por cascatas de sentimentos. Complicado é identificar em experiências mais triviais ou “menores”, a sabedoria e o aprendizado da vida. Mark é um hábil artesão desta complicada tarefa de varrer seus dias e encontrar indícios de maturidade e/ou vulnerabilidade.

Down In The Willow Garden é mais uma dessas situações. Da mesma maneira que faz em sua banda Sun Kil Moon, Kozelek se vale do Folk sombrio para esse diário pessoal. As quatro faixas foram reunidas num EP virtual que vem como bônus em qualquer compra no site da gravadora de Mark, a Caldo Verde Records. É bem mais que um simples brinde. A canção que dá título ao disco é uma antiga balada americana tradicional sobre assassinato – uma das obsessões do sujeito é a morte – e surge em duas versões. A primeira, que abre a sequência de quatro faixas, é mais pungente, com a voz de Mark num registro próximo da raiva, da pregação no meio do nada, daqueles sujeitos que penduram um cartaz dizendo que o fim do mundo é amanhã, mandando que nos arrependamos. Geralmente essas pessoas são malucas, mas a voz de Kozelek nos alerta que ninguém fica louco por acaso. Talvez haja – e ele acredita nisso certamente – muito sofrimento envolvido. A segunda versão, que fecha o disco, é mais leve, mais angelical, como uma canção de ninar, algo menos terrível que a primeira interpretação.

As canções que complementam o EP são bem diferentes. Sick Again é uma obscura faixa de Led Zeppelin, safra 1975, das menos lembradas em seu glorioso álbum duplo Physical Grafitti. Quem acompanha a carreira de Mark sabe da importância da banda inglesa em sua formação musical e como celeiro de experiências na pré-adolescência na América das presidências de Gerald Ford e Jimmy Carter. Ele transforma o arranjo complexo de Jimmy Page e faz do esqueleto e da simplicidade da canção as suas maiores belezas, alternando vários instrumentos acústicos como violão, guitarra e bandolim. Fechando o pacote, temos a impressionante Chapter 8 Of John Connoly’s A Song Of Shadows, que, como o nome já diz, é um compêndio de impressões de Mark sobre um trecho do livro do escritor irlandês John Connoly, da série de lançamentos que têm o detetive particular Charlie Parker como personagem principal. A Song Of Shadows, segundo consta, é uma história com mortes, mistérios e reviravoltas ambientada numa cidadezinha do Maine, estado americano bem a nordeste, quase no Canadá. Kozelek chega a recitar trechos inteiros do livro.

Ouvir Mark Kozelek não é tarefa fácil, o sujeito não tem qualquer anteparo para te proteger do que vai te falar. É um caso comovente de quem, por mais que relate as pequenas tragédias do cotidiano, o fará com uma intrincada trama instrumental e sentimento de sobra.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.