Resenhas

Mel Azul – Bonde do Esgoto

Segundo disco do quinteto paulistano transforma suas bases e mostra som autoral cheio de humor e rimas

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Ano: 2014
Selo: Uivo Records
# Faixas: 8
Estilos: Rock Psicodélico, Hip Hop
Duração: 43:00
Nota: 4.0
Produção: Mel Azul

Já havíamos noticiado a chegada do “bonde” quando estávamos presente em uma das apresentações prévias do segundo disco dos paulistanos do grupo Mel Azul e se naquele momento a conclusão poderia ser quase definitiva, agora, com a obra materializada e disponibilizada para ser baixada gratuitamente até o dia 25/10, podemos afirmar que a sujeira não tem limites e que a psicodelia é o glúten que dá massa ao grupo. Bonde do Esgoto chegou logo tentando definir o que é o Rock Foda – jargão carregado e batido no peito por Doctor Herman, Dedo Sujo, MC De La Veiga, MC Moleque e Prodígio – mostrando os dentes e colocando a genitália na mesa.

A verdade é que a música perdeu o humor, aquele traço que fazia até o mais inocente dar risada com a subversão de grupos como Raimundos (antes da saída de Rodolfo) e Planet Hemp. Se a zoera acabou, ela não tem mais limites no mundo da Internet, mecanismo que insere muito bem este grupo cheio de referências, efervescências e excentricidades – todas materializadas com a boca suja, tão fétida que faria a sua mãe pedir para você lavar com sabão – por exemplo, “mexendo com as novinhas e apavorando os pau no cú”, como na abertura, Essa É Pras Criança (“pra elas aprender”).

“Desculpa se eu te ofendi (foi por querer)/começamos como uma banda instrumental, mas era só brisinha, não tinha vocal” continuam explicando basicamente o que constitui o Mel Azul em seu formato definitivo – Rock Psicodélico com muito Groove conduzido por uma guitarra progressiva cheia de efeitos, sintetizadores atmosféricos e uma batida constante, quebrada sempre no momento certo. O acréscimo de vozes tornou-lhe uma banda de Rap, não mais instrumental, mas também seus músicos como verdadeiros paladinos do humor, quebrando valores a partir da subversão musical. Continuam sua levada “pesada” que deixa os ouvidos doendo em Mulheres Árabes, que retorna temas da faixa inicial e se unem sempre na letargia.

Os grandes momentos do disco se dividem em duas faixas antagônicas, mas que somente o quinteto poderia construir: Great Enemies e Erika. A primeira nos joga em um ambiente inóspito, cheio de fumaça e perigoso, com o grupo colocando-se sempre como “inimigo do estado”. Mas o que estariam estes jovens fazendo para causar tanta rebeldia? O uso de drogas “fictícias” em Dr. Herman, a boca cheia de palavrões que apavora geral (“Não sou heroí de cuzão mas por que seria?”) e questinona na faixa ou simplesmente por estarem fazendo o Rock Foda? A verdade é que o grupo não se propõe às amizades, mas a diversão, universo bem sentido em seus eletrizantes e chapantes concertos, sempre repletos de homens e mulheres, até porque a sujeira é um prato cheio para esbórnia, para fugir dos padrões, algo que o grupo tenta mostrar do começo ao fim.

No entanto, o grande single do psicodélico trabalho de oito faixas é Erika com seu dopante refrão (“Erika farmacêutica/é meu remedinho/é meu remedinho”) contanto a história da “fictíca mulher” japonesa que envolve até seu pai, antigo samurai. Suas referências orientais, que falam sobre lutas e gueixas, entre outros, animam até o mais contido nerd ou jovem tímido a entrar no suingue e cantar junto. É comum se encontrar dando sorrisos de canto de boca a cada verso compreendido, sempre envolvente na batida. O vocoder usado em O Nome Dele é Garoto traz comicidade e quebra a cintura da mulher, enquanto Dr. Herman é totalmente psicoativa – cresce na bateria e abre espaço para o piano e backing vocal à la The Great Gig In the Sky (Pink Floyd) para depois mudar toda a sua estrutura com a entrada de um Pop em inglês cantando sobre a droga do famoso doutor, “dilly”.

Isso é que é Rock Psicodélico – desconfigurar bases consolidadas, subordinar a novas ideias e sempre alterar o tempo e a percepção do ouvinte. Para um grupo que estava batalhando há tantos anos no underground brasileiro, a mudança de ares e a incorporação de vocais – se tornando uma banda de Rap, mas com versos cheios de humor, sujeira, resiliência e sobretudo diversão – foram escolhas certas. Traz frescor às caras fechadas em concertos de Rock, mantém as suas raízes de Groove e Funk e se propõe a tornar a sua experiência ao vivo ou no mp3 mais humorísticas, não em um sentido banal ou pastelão, mas subversivo. Como se Hermes e Renato não fosse só ácido nas palavras, mas também em sua essência, cheia de psicodelia dançante e efervescente, Mel Azul lança suas bases para “ensinar as crianças” o que é o Rock Foda .

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Autor:

Economista musical, viciado em games, filmes, astrofísica e arte em geral.