Resenhas

MENEIO – Movediço

Grupo paulista entrega obra complexa, experimental e de significados múltiplos

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Ano: 2019
Selo: Balaclava Records
# Faixas: 10
Duração: 36'
Nota: 4.5
Produção: Fernando Sanches, Éric Yoshino e Jovem Palerosi

Na psicanálise de Lacan, há um conceito interessante que por vezes se expressa musicalmente em alguns discos, principalmente naqueles desprovidos de letra, que encontram as condições ideais para a propagação de sentimentos e sensações no instrumental puro. O francês diz que, às vezes, o que queremos (de fato) dizer não é propriamente expresso nas palavras mais precisas, mas por meio de um ato falho, uma palavra ou expressão que provoca um deslizamento de significados em direção de nossos desejos primordiais.  

É curioso que este termo “deslizamento” seja empregado. Em discos instrumentais, apesar da ausência de palavras deixar a margem de interpretações, isto não significa que as composições não sejam desprovidas de significados. É justamente aí que a banda paulista MENEIO parece ter acertado em cheio, ao nos propor um álbum que nos permite deslizar por entre os diferentes significados e intenções dos compositores, bem como preencher as lacunas com nossas percepções, possibilitando uma obra modificável a cada nova escuta.

Dessa forma, o disco não poderia ter um título mais apropriado do que Movediço. Segundo álbum do grupo, ele revela ser uma experiência totalmente imersiva dentro da música instrumental. Ele pode trazer uma aparente textura suave e mansa, embalada de muito groove, mas isto é apenas uma das faces possíveis de enxergar. Se nos entregarmos de corpo e alma, logo poderemos ver que estes elementos nos drenam para uma complexidade maior. Ou seja, a aparente calmaria é quase uma armadilha para nos sugar para um verdadeiro delírio, um que não tem medo de expandir para os limites e tocar o Rock Progressivo, a Psicodelia e o Trip Hop.

Quando nos damos por nós, as diferentes texturas, humores e maluquices nos pegam totalmente desprevenidos. Portanto, o disco cumpre duas funções ao ser escutado: o de ser uma narrativa totalmente imersiva daquilo que a banda deseja transmitir e de ser misterioso em suas labirínticas estruturas, convidando o ouvinte a se perder dentro dela.

Com guitarras em uma direção e bateria e baixo em outro, a polissêmica EsquinaChama abre o disco não poupando esforços em trazer toques psicodélicos para a composição. Hipnose-Regressão traz uma dinâmica semelhante, abrindo espaço para que cada instrumentos traga sua própria essência e se mistura com os demais. Canindu talvez seja a mais expansiva do disco, não poupando esforços em seus reverbs e delays infinitos, bem como um sintetizador rasgador que flertar com um Rock Progressivo.  Por fim, Chemtrail é mais ligeira, podendo lembrar um King Gizzard mais brando, ou um Frank Zappa menos lisérgico, (ou ainda um Miles Davis experimental mais Dub). É curioso como todos estes nomes comporta parte da personalidade do disco, apenas comprovando sua pluralidade e complexidade.

MENEIO se aventura pelo terreno Movediço de seu experimentalismo, enriquecendo ainda mais a cena instrumental nacional. Em um registro que vai além da mera escuta passiva, o grupo paulista se destaca pela sua complexidade, ambição e até mesmo humildade de deixar ouvinte fazer parte da obra. Uma obra em constante construção.

(Movediço em uma faixa: Hipnose-Regressão)

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BOM PARA QUEM OUVE: Mahmed, Máquinas, Mawu

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.