Resenhas

Michael Cera – True That

Disco solo do ator canadense é um selfie sonoro

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Ano: 2014
Selo: Independente
# Faixas: 18
Estilos: Lo-Fi, Folk Alternativo, Alternativo
Duração: 50:26min
Nota: 2.0
Produção: Michael Cera

Meu primeiro encontro com Michael Cera foi em 2007, vendo Superbad. Até hoje, é seu melhor filme, na minha modesta opinião. Seu personagem, Evan, tímido e desajeitado, serviu como ponto de partida para vários outros que construiu ao longo da carreira. Cera, um canadense de 26 anos, bem ou mal, sempre esteve próximo da música na maioria de seus filmes. Foi assim em Juno, Scott Pilgrim, Nick And Norah Infinite Playlist, e sua aparição cantando These Eyes, sucesso de 1971 dos seus conterrâneos do grupo Guess Who, cercado de traficantes barra-pesada no próprio Superbad é uma das melhores cenas do filme.

Sem qualquer alarde, Cera lançou seu primeiro álbum online na semana passada. A empreitada só ganhou visibilidade quando seu amigo, o também ator Jonah Hill, seu colega em Superbad, publicou elogios no Twitter sobre a qualidade da música feita em True That. O disco é um feixe de 18 canções (com três bônus) que brincam no terreno do Lo-Fi e do Folk, levando o simpático rótulo de bedroom music de algumas publicações especializadas em música que noticiaram o lançamento do álbum, mas não comentaram seu conteúdo. Tal (falta de) movimento me fez pensar se haveria mais interesse no artista queridinho dos independentes e descolados ao redor do mundo lançando música do que em sua qualidade. Ouvindo as canções de True That, fica evidente que Cera não pensou em qualquer possibilidade comercial ou teve cuidados especiais de produtor e nesta atitude está o charme do álbum. São rascunhos, ideias, pensamentos e algumas faixas um pouco mais próximas do que poderíamos entender como uma canção propriamente dita.

No terreno dos rascunhos estão Uhohotrouble, quase um exercício de dedilhado ao violão, Moving In, com um piano meio torto e intencionalmente mal gravado, Steady Now, com vocais e efeitos psicodélicos mas uma certa aura de melodia doce por trás. Humdrummin também é esparsa, com efeitos de teclados emulando sonoridades infantis, assim como 2048, que amplia esta noção de trabalho em progresso para o terreno do órgão. Clay Pigeons, uma cover para a tradicional canção de Blaze Foley (obscuro cantor Folk americano, falecido em 1989) e Play It Again, outra cover para um desconhecido cantor, desta vez, Roderick Falconer, são, ao lado da autoral Silent Struggle (I Was Blind) os mais nítidos exemplos de canção que o álbum traz. Todas são harmoniosas, na base do voz/violão, sendo que Cera imita o canto anasalado de Bob Dylan em Play It Again.

True That é um exercício de curiosidade nestes tempos estranhos. Não irá muito além da curiosidade dos fãs, não fará com que Cera grave outro álbum mais focado ou no mesmo esquema. Talvez sua melhor forma fosse como um registro pessoal de rabiscos sonoros, algo que se justifica quando a plateia é reduzida a pouquíssimas pessoas, além do autor. Como arte a ter valor atribuído, naufraga na auto-indulgência e não vai a lugar nenhum. Não vai muito além de um selfie sonoro.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.