Resenhas

Mike Oldfield – Man On The Rocks

Novo registro do compositor retrata fielmente a sonoridade dos anos 70

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Ano: 2014
Selo: Virgin Records
# Faixas: 11
Estilos: Art Rock
Duração: 59:32
Nota: 3.0
Produção: Stephen Lipson, Mike Oldfield

Mike Oldfield é uma espécie de Peter Gabriel menos intenso e genial. Famoso por discos importantes dos anos 70 (Tubular Bells, de 1973, o mais conhecido de sua carreira e vendeu mais de 17 milhões de cópias), sua obra sempre oscilou com gentileza pelos terrenos do Progressivo, Folk e Clássico, com doses iguais desses estilos moldando uma música pessoal o bastante para arrebanhar uma legião de fãs ao redor do mundo, sobretudo na sua Inglaterra natal. Mike lançou Music From The Spheres, seu último disco em 2008, e parecia meio jururu quando foi convocado para apresentar-se na abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. A partir dali, a ideia de um novo disco ganhou corpo e transformou-se neste Man On The Rocks. Talvez renovado por sua vida após separar-se da esposa, Mike fez um disco de, vejamos, Rock.

Entenderemos por “Rock” neste caso, uma sonoridade voltada para as décadas de 1970 e 1980, no auge da acessibilidade do estilo, quando variantes amigáveis como o Adult Oriented Rock ou a mutação do Progressivo em música mais fácil, levavam a outrora música de contestação para as FM’s e MTV’s do mundo, limando qualquer impureza no discurso e adaptando para o cotidiano de uma grande quantidade de pessoas, que, no fim das contas, só queriam ouvir algo bem feito, bem produzido e com um teor mínimo de guitarras e vocais que poderiam estar em grandes espaços ou no banco do carona na volta para casa após o expediente. Man On The Rock é exatamente isso, um disco amigável, bem feito e bem produzido. Oldfield recrutou uma banda, tirou o pó de sua guitarra elétrica, e chamou o vocalista Luke Spiller para conferir um certo ar U2 à coisa toda e situar a identidade sonora do álbum próxima aos cantos confessionais de Bono fase 1986.

As gravações foram feitas em Los Angeles e Oldfield participou delas via Skype, além de terminar boa parte das canções em seu estúdio caseiro nas Bahamas. Sendo assim, numa vida idílica nos trópicos, é estranho ver que as primeiras palavras dele no disco, ditas por Spiller, sejam “Quero respirar, deixem-se sair, estou num buraco de concreto”, logo na abertura do single Sailing, que subiu altíssimo na parada de sucessos inglesa. O clima é de ingenuidade e técnica, com tonalidades épicas por toda a canção, agradando em cheio a ouvintes de três, quatro décadas de Prog Rock. Moonshine e a faixa título, que vêm logo a seguir, equilibram-se numa competente estrutura musical que dá ao disco um inegável apelo arqueológico. Se Daft Punk pode dizer que citou Alan Parsons Project em seu último disco, por que não apontar o grupo inglês como principal influência no trabalho de guitarras urdido por Oldfield por aqui? Castaway traz o uso de órgão, bem a exemplo de Emerson, Lake And Palmer em trabalhos execrados pela maioria (no caso, Love Beach, disco deles de 1978) para uma nova visão, mesclando o canto dramático de Spiller e um clima de suspense que vai desaguar numa bateria pesada e plastificada, que cai como uma luva. Minutes também vai pela mesma onda, poderia ser uma canção do Asia. Dream In The Wind vem emoldurada por uma guitarra que emula o melhor dos fraseados de Mark Knopfler no Dire Staits.

A parte final de Man On The Rocks inicia-se com Nuclear, igualmente climática, lenta, iniciando sutil e explodindo após o primeiro minuto, num misto de solenidade e isqueiros acesos no estádio. Chariots é puro 1986, com eletrônica vintage por todos os lados, Follow Angels é um misto de Gospel em baixos teores e Progressivo, tudo sob medida para listas de mais tocados em FM’s, enquanto uma pegada um pouco mais pesada e inspira-se no Furacão Irene, que devastou o Caribe em 2011. I Give Myself Away encerra o cortejo com a dramaticidade necessária. Man On The Rocks pode não ser o melhor disco possível em 2014, mas é admirável que Mike Oldfield tenha gravado uma coleção de canções tão aparentemente conservadoras, ingênuas até, e tenha chegado longe na preferência dos ingleses. Um rótulo para este som, mencionado na própria Inglaterra, e que se adequa perfeitamente: Dad Rock.

Se foi possível reempacotar vários estilos malditos pela crítica musical dos anos 80, por que não imaginar o mesmo para a variante FM do Progressivo? Se isso for possível, Oldfield está na pole position com Man On The Rocks. Leva três bananas pela qualidade da gravação e pela (intencional ou não) capacidade de recriar a sonoridade da época.

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BOM PARA QUEM OUVE: Doves, Elbow
ARTISTA: Mike Oldfield
MARCADORES: Art Rock

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.