Resenhas

Mitski – Laurell Hell

Sob produção mais volumosa, a compositora vai além das guitarras para expressar suas emoções e, dançando como distração ou alívio, reflete sobre a ambiguidade entre sucesso e ilusão

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Ano: 2022
Selo: Dead Oceans
# Faixas: 11
Estilos: Synthpop, Indie Pop, New Wave, Electro Rock
Duração: 32'
Produção: Patrick Hyland

Segundo Mitski, cantora-compositora nipo-americana, “laurel hell” (inferno de louros) é um termo usado pelos Apalaches do Sul para designar arbustos de louro que crescem em matagais na região. Algumas pessoas se prendem nesses arbustos e até morrem – uma metáfora perfeita para coisas lindas que, ainda assim, te aprisionam e destroem. Esse é o nome do sexto  álbum da artista: um retrato claro de quem tem uma relação ambivalente com a arte.

Mitski é drenada pelo fardo de sua maior paixão: a música, uma prisão que a atrai pela poesia e a repele pela exposição. Depois do aclamado último álbum, Be The Cowboy (2018), a artista esperava desaparecer por completo – mas tinha por contrato a obrigação de criar mais um disco. Surge Laurel Hell, obra lançada agora em fevereiro. O repertório abre com “Valentine, Texas”, uma faixa trágica, torta, quase circense. Essa é uma artista que estranha seu próprio trabalho, mas aos poucos se lembra por onde ir: “Once we’re in, I’ll remember my way around / Who will I be tonight?”. É como quem entra em uma casa em que já morou, mas demora a reconhecer.

Entre a emoção criativa e a obrigação de fazer arte, Mitski é aberta a vulnerabilidades – e essa é a única forma em que ela e a música se reconhecem, na crueza e intimidade de uma com a outra. Na franqueza de se encarar. Depois da melancólica “Nobody” do disco anterior, ela nos deixa uma resposta com “Everyone”, um comentário de quem não tem ninguém ao seu lado, mas todos lhe dizendo o que fazer. Ela se expõe, de novo, em seu existencialismo agudo: “How do other people live? / I wonder how they keep it up / When today is finally done / There’s another day to come”. É a mesma artista de sempre, frustrada com a monotonia do presente e com dificuldade em enxergar um futuro.

Mas algo vem mudando. Para quem vivia acompanhada de guitarras – e as lambia, até –, Mitski parece ter encontrado formas mais suaves de refletir suas emoções. Na verdade, o conjunto de músicas tem toques de alegria: com seu parceiro de longa data, o produtor Patrick Hyland, a artista cobre sua voz aveludada com sintetizadores oitentistas, muitas vezes te convidando para dançar – o que pode soar como alívio ou distração.

É como se Mitski te isentasse da culpa por ouvi-la em suas angústias. De certa forma, o principal relacionamento retratado é entre ela, o álbum e você, que ouve. Isso fica nítido em “I Guess” – faixa que seria ideal para encerrar o álbum: “It’s been you and me / Since before I was me”. Ela assume a cumplicidade entre artista e música, talvez público; e estabelece um término dolorido, mas sem mágoas. “From here, I can tell you / Thank you”.

Em Laurel Hell, a dor está nas entrelinhas mais do que no som. Não se trata de uma reinvenção completa da artista, mas, sim, de uma reflexão. Sobre trajetória, relacionamentos passados e uma das questões mais complexas da vida: a ambiguidade de ser bem-sucedida, mas não ter nada resolvido. É um disco que pretende ser mais sorridente do que acaba sendo, sem faltar em delicadeza. É sutil e amargo, refinado e enigmático. E deixa seus pequenos presentes, incapaz de prometer uma despedida ou sua permanência.

(Laurel Hell em uma faixa: “Working for the Knife”)

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ARTISTA: Mitski

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