Resenhas

Modest Mouse – Strangers to Ourselves

Isaac Brock e seus companheiros enfrentam adversidades e conseguem criar obra compentente

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Ano: 2015
Selo: Columbia/Sony
# Faixas: 15
Estilos: Rock Alternativo, Indie Rock, Noise Pop
Duração: 57:01
Nota: 3.5
Produção: Brian Deck

Estamos em 2015 e ainda há fãs de Modest Mouse se preocupando se a banda soa como nos tempos em que pertencia ao cast da gravadora Sub Pop ou mais próxima dos trabalhos registrados a partir de The Moon And Antarctica, o primeiro álbum (quarto da carreira) que gravou para a Epic/Columbia. Gente, isso foi há 15 anos, portanto, parem. O que importa é que Isaac Brock, o cérebro por trás do grupo de Seattle, entregou novo ramalhete sonoro, que teve um parto, digamos, complicado. Vamos dissecar Strangers To Ourselves.

Brock e seus rapazes lançaram o trabalho anterior, We Were Dead Before The Ship Even Sink no distante ano de 2007, com direito a participação de Johnny Marr como um integrante quase fixo da banda. Fizeram sucesso, aliás, como fazem desde 2000, quando The Moon And Antarctica veio e passou a definir certo padrão de som roqueiro, com influências oitentistas, de pedigree Indie, mas sustentado por um vínculo, digamos, com o mainstream, algo que nunca comprometeu a sonoridade de Modest Mouse, apesar dessa quantidade razoável de fãs que vê os integrantes da banda como “profissionais do Rock Alternativo”. Após oito anos, essa conclusão não muda, para o bem e para o mal. O que pode significar algo novo é o desejo de Isaac Brock de alterar alguns parâmetros, como, por exemplo, convocar um sujeito como Big Boi para produzir o disco. A tabelinha não deu certo, mas seria um manifesto desejo de mudança. Além disso, o baixista e membro-fundador, Eric Judy, abandonou o barco e o grupo ao longo das gravações, o que levou Brock a lidar com várias batatas quentes e assadas em diferentes níveis.

O frontman saiu-se bem, passou a cadeira de produtor para Brian Deck e dedicou-se a reviver Modest Mouse. O single Lampshades On Fire, segunda faixa do álbum, é um compêndio de influências noventistas, da levada com groove aos vocais com decalque Rap, mas tudo devidamente assimilado à amplitude de referências que uma banda de Rock pode ter em 2015. Entre procurar distinguir-se em nome de uma fidelidade furada a este ou aquele estilo, Modest Mouse se assume como uma formação “grande”. Coyotes, outra canção lançada antes do disco, já vem com moldura voz/violão/efeitos, com destaque para a voz anasalada de Brock, mas que embarca em valsinha de instrumentos e corais superpostos, com graça necessária. The Best Room também segue essa cartilha de várias influências, começa com alguma semelhança distante com uma canção de Red Hot Chili Peppers, mas avança rumo ao que poderia ser um lado B da fase final de Pavement.

A melhor canção foi a última a ser divulgada pelo grupo antes do lançamento de Strangers To Ourselves, a boa e suingada The Ground Walks With Time In A Box, que seria uma boa sobra de estúdio de Talking Heads fase True Stories, com guitarras comissionadas, bateria com alto potencial propulsor e vocais na fronteira entre a nerdice construtiva e os primeiros sinais de demência, tudo dançante e envolvido pelos braços amorosos da linha de baixo, gorda, grande e com os dois pés no Funk branco do início dos anos 1980.

Brock e seus amigos podem suscitar as dúvidas de alguns fãs mais ranhetas, mas há tempos provam que é possível ter uma, digamos, mentalidade alternativa e não abrir mão dela só porque seu álbum é distribuído mais rapidamente e seus compromissos incluem programas da TV em rede nacional. Há integridade e inventividade nesse novo trabalho de Modest Mouse, o suficiente para prestarmos mais atenção na música em vez de pensar quem assina o contrato da banda. Bom disco, com maluquice e competência na medida certa, sem contraindicações.

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.