Resenhas

Monoclub – Romperia

Banda paulista faz disco honesto de Folk nacional

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Ano: 2016
Selo: Independente
# Faixas: 11
Estilos: Rock Alternativo, Folk Alternativo, Country Rock
Duração: 34:31
Nota: 3.5
Produção: Monoclub

Quando os primeiros acordes de Jean Balmont, canção com nome de vinícola francesa no vale do Loire, varreu o ambiente por aqui, pensei que Monoclub era mais uma formação discípula de Los Hermanos. Felizmente, eu me enganei. A banda de Sorocaba, São Paulo, está muito mais para os lados de Vanguart ou mesmo para algumas formações estrangeiras, que insistem – para a nossa felicidade – em fazer música Country/Folk nos dias tão urbanos e pragmáticos de hoje. Explico o estranhamento: estes dois gêneros são forjados na experiência pessoal, nas idas e vindas das pessoas nas estações de trem, ônibus e, vá lá, aeroportos, geralmente às custas não só de lágrimas e saudades, mas também de alegrias e reencontros. A música de Monoclub tem um pouco deste sentimento de mobilidade, de inserção nesta pós-modernidade que pode ser bastante opressora quando quer. Seu primeiro álbum, Romperia é um pequeno testemunho sobre isso.

Monoclub nasceu em 2010. É formado por Fabio Baddini, Bruno Orefice, Bruno Peretti, Lucas Marx e Dilson Sartori, sendo que Marx é o integrante mais recente, integrado à banda desde 2014. Já com alguns singles no currículo, excursões por cidades brasileiras e nos Estados Unidos, o grupo já tem bagagem suficiente para um salto maior e o álbum é sua credencial. A sonoridade funciona, tornando-se essencial para mostrar o quanto o homem do interior do país, habitante de cidades longe das capitais, não precisam, necessariamente, ser alegres o tempo todo e mostrarem-se capazes de fazer algum tipo de reflexão sentimental mais séria. Ou seja, nem tudo nestas cidades se resume a ritmos avalizados pela grande mídia, há mas e melhores compositores, vocalistas e cérebros nestes lugares, refletindo e encarando a vida sem se acabar na balada top, na micareta ou na festa de peão. Ainda bem, confesso.

A sonoridade que perpassa todo o conteúdo de Romperia é um Folk Rock moderno e bem tocado. Há espaço para violões acústicos, acordeão, mas também rola uma fluência satisfatória na abordagem baixo-bateria-guitarra, mostrando que o pessoal entende o que está fazendo, sem pesar a mão para nenhum dos lados da moeda. Enquanto canções como Sobre Os Nós são muito mais próximas do Rock Alternativo atual, Nascer e Amar, canção prima distante de algum registro mais acústico e obscuro de Engenheiros do Hawai, mas também devedora de aspectos presentes nas criações de bandas como Mumford & Sons cheia de climas e nuances, está muito mais para um imaginário rural brasileiro, com placidez e belezura por toda parte. O bom do álbum é o equilíbrio entre as cidades, os destinos, as idas e vindas, tendo sempre em mente que o melhor caminho é aquele que mistura asfalto e terra batida.

A faixa título é outro destaque. Fechando o álbum, ela apresenta elegante levada eletroacústica, com fraseados épicos e com cara de por do sol no Velho Oeste, mas sem resvalar para a caricatura estética em nenhum momento, apenas usando os clichês do Country como referência, nada mais. Outro destaque é a bela I.N.C.E, com violões acústicos, clima de paisagem verdejante logo além do casario, sobre o qual o sol vai se movendo preguiçosamente ao longo do dia. A bateria com vassoura, os bons vocais e uma melodia solar conduzem a canção com belezura total. Outro momento alto é Pra Quem Se Vê, soturna balada mais lenta e questionadora, lembrando algo que poderia ser de Nei Lisboa, mostrando que há algo de interior do país – personificado nestes artistas gaúchos, mestres em dissertar sobre a distância das capitais – presente nas canções de Monoclub. Talvez eles nem pensem nisso, vá saber.

Romperia é um disco frágil e delicado, bem produzido, bem tocado e capaz de fazer com que Monoclub ultrapasse a fase de promessa e, de fato, aconteça em todas as cidades e capitais possíveis. Romperia fornece um outro olhar do interior não tão interiorano assim, algo de que não temos notícias sinceras há um bom tempo.

(Romperia em uma música: Nascer e Amar)

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Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.