Resenhas

Mount Kimbie – Cold Springs Fault Less Youth

Dupla sai da zona de conforto e se aproxima do orgânico para fazer uma obra com vocais e muita personalidade

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Ano: 2013
Selo: Warp
# Faixas: 11
Estilos: Experimental, Trip Hop, Dubstep
Duração: 42:52
Nota: 4.0
Produção: Dominic Maker e Kai Campos

Aproveitando uma época em que há uma forte crítica ao EDM e um conselho de humanizar a música eletrônica, o duo londrino Mount Kimbie segue com uma proposta viva. O recém-lançado álbum Cold Springs Fault Less Youth tem onze faixas que gritam uma mensagem direta, suplicam interesse e chocam com sua objetividade. Possibilidades somente acatadas por fazerem parte do Warp, um selo que respeita o experimental e incentiva as nuances individuais de cada produtor. Agora, Dominic Maker e Kai Campos, nomes por trás do projeto, subiram um degrau na maturidade e chegaram ainda mais perto do que realmente é o Mount Kimbie. Sem medo de assustar, de arriscar, de experimentar, assim como deve ser.

Esse passo a frente se dá, inclusive, no uso completo de vocais, no uso semântico das palavras, na narração de fatos e opiniões. Diferente de Crooks & Lovers, seu álbum de estreia, Cold Springs aproveita a oportunidade de se tornar mais original fazendo maior uso de elementos orgânicos, isso inclui faixas com guitarra, percussão e bateria. Na obra de 2009, os vocais eram expostos de forma primária, cortadas, sintetizadas: nada mais comum para um primeiro álbum. No entanto, Maker e Campos optam por abandonar o comodismo e se arriscar na análise não só sonora, mas também de conteúdo, na construção de histórias e mensagens. É o risco que lhes botam em outro patamar.

Quem ajuda os produtores nesse desafio é King Krule. O jovem de apenas 19 anos não representa somente o vocal em faixas espersas. Ele aproveita a chance de demonstrar força e agressividade em bases que nem sempre acompanham sua atmosfera. O contraste indaga, lembra o início do companheiro Tyler the Project e dá um show de força e capacidade. “Now did you see me? / I killed a man”, em You Took Your Time, mergulha nos sintetizadores como num Trip-hop que nos lembra Tricky, dentro de uma estrutura densa de Massive Attack. O mesmo acontece em sua volta, na oitava faixa Meter, Pate, Tone. As frases “See me I don’t exist / You won / See me I don’t exist / what’s done, it’s done” não amacia nem engana, é sincero, direto. É possível perceber que a letra rouba sua atenção enquanto tudo lá dentro responde à escolha minuciosa do pacote de sintetizadores delicados e fortes na mesma dose.

Cheio de referências, Mount Kimbie nos dá a passagem para uma viagem otimista e sem rancor pelos lugares mais leves e contrastantes. Break Well, com certeza um dos pontos mais altos do álbum, nos dá um prato de sintetizadores amargos no início bem como um episódio de cinema de Burial, com direito a quedas e sussurros. A instabilidade da faixa é tão grande que, de forma abrupta, o eletrônico dá espaço a uma base completamente orgânica e relaxante, como um Indie eletrônico que tem seu fim sem avisar, sem explicações. O mesmo casamento é visto na faixa de abertura Home Recording, em que percussão entra em contato com piano e é recheado do vocal estável e relaxante de Kai. A peça representa bem o que Cold Springs propõe. A viagem começou e você nem percebeu.

De forma mais amigável, Campos empresta sua voz também na sombria Blood and Form e a crescente Made to Stray. A primeira demonstra uma tensão parecida com o sufoco que é possível ver em Slow, com órgãos viscerais a la Crystal Castles. A segunda dá aula de produção e representa um crescimento de elementos desde seu início. O agudo do começo é acompanhado por uma linha de baixo percussiva que aumenta em progressão e dança com loop de sintetizadores circulares. Quase que sua segunda metade, os orgãos constroem um cenário Deep House com a timidez de Kai em um Post Dubstep quase anunciado.

Mesclando bem o instrumental com o vocalizado, o sintetizado com o orgânico, o angelical e o agressivo, Cold Springs Fault Less Youth funde bem um talento nato com uma ambição saudável. Apesar de bem construído, produzido e na dose correta humano, o álbum mantém sua veia eletrônica em faixas como Fall Out e Sullen Ground, uma sombria e amargurada e a outra sutil e delicada. E trabalhando bem os vários contrastes já citados, que Mount Kimbie se expõe mais uma vez na proposta do novo trabalho. Apesar de linhas pessimistas e um pouco cansativas quando agressivas em excesso, as faixas representam bem uma cartela de variedades desde o Indie ao Experimental, trazendo uma bagagem, em sua maioria, leve para o material. E é isso que surpreende. Cold Springs passa sem perceber, flui com naturalidade. Duro na hora certa, brando na medida certa. Cold Springs é o resultado de uma ganância saudável que botou Maker e Kai um passo a frente da certeza que vão surpreender muitos ouvidos ainda.

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Autor:

Publicitário que não sabe o que consome mais: música, jornalismo ou Burger King