Paul Weller – True Meanings

Cantor e compositor inglês volta em disco Folk e reflexivo

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Ano: 2018
Selo: Parlophone
# Faixas: 14
Estilos: Folk, Chamber Folk
Duração: 76:48
Nota: 4.5
Produção: Paul Weller e Conan O'Brien

Artista bom é aquele que surpreende. Artista ótimo é aquele que surpreende mesmo estando no que se chamava de terceira idade. Paul Weller completou 60 anos há poucos meses e segue dono de verve exuberante como cantor e compositor de Rock. Com uma carreira de 40 anos a serviço de bandas como The Jam e Style Council, além de um imenso trabalho solo, o Modfather é um gigante em atividade com 26 discos gravados. Não dá pra dizer que ele tenha assinado embaixo de algum trabalho menos que bom. True Meanings, seu álbum mais recente, é algo ímpar em seu currículo. É uma reflexão sobre a vida, um olhar para os lados, nunca para trás. Weller é um cara anti-nostalgia também. Ele faz o que faz e ponto final.

É bom que se faça um alerta: este é um trabalho de sutilezas e nítida têmpera Folk. Se Paul Weller é sinônimo de Rock para muitos, aqui ele abre mão disso e registra catorze composições embebidas de violão, cordas e contemplação. É também um trabalho altamente pessoal, gravado num estúdio particular nos rincões da Inglaterra, totalmente tributário da alma britânica folkster, que já alimentou tantos discos legais do passado e presente. Para os fãs de Nick Drake True Meanings traz um bônus: orquestrações em quase todas as canções lembrando totalmente o espírito de álbuns como Five Leaves Left e Bryter Later, primeiro e segundo trabalhos de Drake, participantes da discoteca básica deste folk britânico tristonho e angustiado dos anos 1960. Talvez não intencionalmente, Weller recorre a este modelo ao longo de seu álbum com muita propriedade. Influências de Cat Stevens também pipocam por toda parte.

Como dissemos, True Meanings está longe de ser triste. É um atestado de estar no mundo e saber de várias coisas que uma maioria alardeante não sabe. Também é sobre separar o joio do trigo, entender os significados das coisas. Para falar disso e passar esta impressão para o ouvinte, as 14 canções são lineares e praticamente formam um painel homogêneo. As tais orquestrações pastoriais à la Nick Drake surgem graciosas por toda parte, mas alcançam o ápice da gentileza em Come Along, que chega a exibir os rodopios que arranjos clássicos como Riverman exibiam há quase 50 anos. Glide, a faixa número 2, é uma cantinga de ninar celestial, cantada com voz quase sussurrada e versos otimistas como “upon my arrival, in this dark and lonely world, where I glide, glide way up high”.

As gravações ficaram muito bonitas. Exemplos não faltam, como Aspects, Movin On ou Wishing Well. Também há uma linda homenagem a David Bowie em Bowie, de arranjo elegante, crescente e cheia de lirismo não-piegas, expresso em versos como “you were just mortal like me, god is only just a melody”, que colocam o finado David em um lugar terreno e celestial ao mesmo tempo, mostrando a confusão de dimensões que sua figura multifacetada gerava em nós, mortais. Ao longo das canções, Weller vai convidando o ouvinte para prestar atenção em detalhes e sutilezas, dando a impressão que pensou em todos os mínimos aspectos de seu disco com precisão de ouvires. É bem provável que sim.

Prefira gente que abre seus corações em forma de música. Paul Weller é desses caras, um ícone do Rock, se colocando ao seu lado e pedindo sua atenção. Uma sinfonia de silêncios e sutilezas.

(True Meanings em uma música: Aspects)

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BOM PARA QUEM OUVE: Ryley Walker, Cat Stevens, Nick Drake
ARTISTA: Paul Weller
MARCADORES: Chamber Folk, Folk, Ouça

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.