Resenhas

Purple Mountains – Purple Mountains

Depois de perder a mãe e atravessar um divórcio, David Berman cessa seu hiato de uma década para apresentar-se como Purple Mountains: um artista capaz de rir da sua própria dor

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Ano: 2019
Selo: Drag City Inc.
# Faixas: 10
Estilos: Americana, Indie
Duração: 44'
Nota: 4
Produção: Jeremy Earl, Jarvis Taveniere

Purple Mountains é o novo projeto de David Berman, músico que estava sumido há mais ou menos década, desde que anunciou a aposentadoria da banda Silver Jews. Na época, ele declarou estar em profundo conflito com o pai ‒ Richard Berman, um famoso executivo norte americano ‒, e precisando de tempo para pensar, voltar a ler e escrever. Se o desgosto com a figura paterna foi o que fez o artista abandonar a vida criativa, é a relação com o lado feminino da família que o traz de volta ao mundo da música

São duas as forças motrizes que o impulsionaram a compor novamente: a morte de sua mãe e o divórcio com sua companheira de mais de vinte anos. De acordo com Berman, pegar de novo no violão se tornou uma espécie de hábito terapêutico. Uma meditação, mas também uma algo como uma massagem, traduzida na vibração que o instrumento cria no peito de quem o toca. Purple Mountains é, portanto, um álbum amargo, mas com uma habilidade surpreendente: ele provoca a catarse através do humor. 

O ressentimento “preto no branco” do músico, colocado no papel para que todos leiam, é o mesmo sentido por qualquer humano em uma fase ruim da vida. Suas composições são focadas nas letras, carregadas de rimas inteligentes e descrições assertivas ‒ o que traz vida para cada um dos versos das canções. Ele consegue ser claro no que diz ao lançar mão de uma poesia do cotidiano, cantando suas maiores agruras sem a necessidade de falsos pudores. 

“All My Happiness is Gone”, “Darkness and Cold” e “Margaritas at the Mall” são títulos que anunciam canções deprimentes, coisa de alguém fora dos eixos. No entanto, Berman, com a ajuda dos amigos do grupo Moons, transforma sua energia confessional por meio de melodias contrastantes. A produção do trabalho é bastante convencional e apoia-se no “formato banda” do Indie ‒ bateria, baixo, guitarra, teclado e assim por diante ‒, mas cumpre com esmero a tarefa à que se dispõe. O estilo Americana do disco faz lembrar em alguns momentos Sun Kil Moon, Father John Misty e também a abordagem mais amigável de Wilco.

O retorno de David Berman como Purple Mountains é sem dúvida um dos pontos altos de sua trajetória como compositor. O álbum pode ser fruto de um ressentimento profundo, mas apresenta-se como uma alternativa ao sofrimento com suas letras diretas, melodias acessíveis e a capacidade de rir de si mesmo.

Purple Mountains em uma música: “Margaritas at the Mall”

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MARCADORES: Americana, Indie

Autor:

Discreto e silencioso. Falo pouco, ouço bem, porém.