Resenhas

Róisín Murphy – Róisín Machine

Irlandesa vai muito além da nostalgia e colhe (e repagina) referências da Disco com personalidade e maestria

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Ano: 2020
Selo: Skint/BMG
# Faixas: 10
Estilos: House, Disco
Duração: 54'
Produção: Róisín Murphy e Richard Barratt

Ainda que, para alguns críticos, o movimento recorrente de revival denote alguma escassez criativa, ele certamente traz novos significados a gêneros consagrados. Nos últimos cinco anos, houve ondas que resgataram a Psicodelia, o Emo e, mais recentemente, uma quantidade considerável de produtores têm encontrado refúgio em meio a Disco.

Apenas neste ano, Dua Lipa e Jessie Ware lançaram excelentes registros que trouxeram não apenas uma homenagem aos clássicos timbres e instrumentações da década de 1970 e 1980, mas criaram um ponto de partida para renovar estruturas e sonoridades, indo além da nostalgia. O grande lance é compreender como cada artista revisita o gênero, seja misturando com elementos do Pop (Future Nostalgia) ou alojando instrumentações clássicas em arranjos menos previsíveis (What’s Your Pleasure). Agora, um novo projeto pode ser acrescentado a esta lista de ouro do Disco Revival, e a responsável é a veterana do Pop irlandês Róisín Murphy. 

Dizer que este é um caminho novo na carreira de Róisín seria um erro. Registros passados como Hairless Toys (2015) e o dançante Overpowered (2007) deixam claro como a música eletrônica já faz parte de sua formação há muito tempo. Dessa forma, seu quinto disco, Róisín Machine, retoma este campo de referências já conhecidas com precisão e cuidado – as composições foram recolhidas de um período de quase oito anos. As drum machines imprimem timbres marcantes da década de 1980, juntamente a sintetizadores clássicos que passam um verniz vintage nas faixas. Contudo, esse disco tem um diferencial que supera a emulação e é um trabalho singular dentro da safra revival deste ano.

Róisín é bastante respeitosa com o passado. Tão respeitosa que compreende que o lugar no qual se inspira é sagrado. Assim, durante as 10 faixas, a sensação é de que a compositora não está apenas pegando emprestado timbres e sintetizadores, mas construindo um universo que de fato seja sentido como no passado. Ela aplica um jogo de sonoridades que produz uma atmosfera de deslocamento temporal. Reverbs e barulhos dão até mesmo uma sensação fantasmagórica, como se Róisín Machine fosse uma espécie de “balada do além”.

Róisín inicia a viagem com “Simulation”, faixa de quase nove minutos, repleta de Deep House, arranjos clássicos e um voice over impactante que já deixa clara a potência de sua música: “Sinto que minha história ainda não foi contada, mas eu farei meu próprio final feliz”. O single “Something More” usa um coro arrebatador, grandioso, que, aos poucos, cria uma tensão entre a repetição e os detalhes subliminares no fundo da composição. O ápice do House se manifesta em “Incapable”, com Rhodes finíssimos e sintetizadores que vêm e vão como ondas digitais – refrescante demais. “Murphy’s Law” é a típica música de makeover, quando as coisas começam a dar certo para o protagonista de um filme dos anos 1980. “Narcissus” se escora na apreensão de cordas de suspense para construir uma angústia infinita, que finalmente cede quando a batida se inicia, constante e envolvente. Róisín encerra o trabalho dando seu grito final em “Jealousy”, terminando o trabalho em seu auge aceleradíssimo.

Em uma tocante relação sinestésica com o passado, Róisín Machine é mais do que um flerte com o House e a Disco. É uma relação completa e profunda. Estes gêneros não são usados apenas como enfeites para deixar as músicas mais enérgicas, luxuosas e bonitas. São peças fundamentais da formação de Róisín e, portanto, formam um tesouro precioso – musical e autobiográfico. Uma viagem temporal e espiritual a Disco primordial, nunca esquecida. E celebrada com maestria.

(Róisín Machine em uma faixa: “Murphy’s Law”)

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Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.