Resenhas

Saba – Few Good Things

Terceiro disco do rapper de Chicago é uma agridoce reunião de família e uma busca por um novo horizonte para comunidades negras – além de mais uma prova de que o MC é um dos melhores de sua geração

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Ano: 2022
Selo: Pivot Gang
# Faixas: 14
Estilos: Rap
Duração: 47'
Produção: Saba, daedaePIVOT, Daoud e outros

Na última década, Chicago consolidou ainda mais sua condição de expoente fundamental do rap contemporâneo. O drill da Glo Gang (Chief Keef e Fredo Santana), seus discípulos do Only the Family (Lil Durk e King Von) e a Savemoney (Vic Mensa e Chance The Rapper), são alguns dos exemplos que mantiveram o status da Cidade dos Ventos, berço de nomes como Common, Lupe Fiasco e Kanye West. Dentre tantos talentos, há o que talvez seja o mais plural dos coletivos: a Pivot Gang. Composta por nomes como Noname e seu jazz-rap revolucionário e o R&B de Smino, a gangue conta ainda com Saba, artista de 26 anos que vem construindo uma carreira tão sólida quanto os nomes mais notáveis da metrópole – fervilhante desde Sam Cooke e Curtis Mayfield.

Para entender Few Good Things (2022), terceiro disco de estúdio de Saba, é necessário revisitar o passo anterior, CARE FOR ME (2018). O predecessor de Saba é uma grande reflexão sobre o assassinato de John Walt, seu primo e antigo companheiro de Pivot Gang. Em “LIFE”, ele extravasa sua raiva e expõe seus medos em relação à violência racial, enquanto “PROM / KING” se escora na grande habilidade de storytelling do rapper para detalhar com profundidade absurda o ocorrido, além de repousar sobre temas como a solidão e a falta de sentido. Esse estado de solidão, inclusive, percorre o disco, que conta apenas com três participações e só um verso convidado (Chance The Rapper, em “LOGOUT”). Já em Few Good Things elas estão em todas as 14 faixas, com exceção de “Stop That”. Saba recentemente se mudou para o sul da Califórnia, e trata seu mais novo trabalho como uma reunião de família em um dia de Ação de Graças em Chicago.

“I’m pretendin’ I’m thankful at Thanksgiving/ I just bought a chain, you can’t change niggas”, 4l4 rima em “Stop That”. E continua: ““We talking ’bout generational wealth / The pressure I built for myself / For all of the people who pics on my grandmama’s shelf / Who heard her say, “Give me the belt.” Em Few Good Things, Saba coloca a história de perseverança de uma família negra americana à frente do pano de fundo da pobreza no oeste de Chicago, o que dá amplo panorama de seus pensamentos. Em paralelo a isso, ele carrega ainda a responsabilidade de ser provedor direto de várias famílias, enquanto um jovem homem negro que atingiu sucesso na carreira, como evidencia no refrão de “One Way”: “ “Every n- – – – with a budget taking care of at least ten buddies”.

Saba demonstra, mais uma vez, porque é um dos melhores MCs de sua geração. Sempre com substância temática, ele encontra fluidez para trocar versos com o artista de drill G Herbo e com Krayzie Bone (Bone Thugs N Harmony), uma das referências do rapper de Chicago. Por falar em inspirações, “Soldier” parece ter saído direto de Aquemini (1998): o flow de Saba é poderoso como de Andre 3000 e o som clama por um verso de Big Boi. Já músicas como “Survivor’s Guilt” e “If I Had a Dollar” poderiam estar em algum projeto de [saudades] Kendrick Lamar Em Few Good Things, Saba também está cantando bastante. Tipo, muito mesmo. Os produtores e colaboradores de longa data Daoud e daedaePIVOT quase não usaram samples, criando uma série de batidas que, apesar de bem produzidas e finalizadas, são como uma atmosfera, uma trilha sonora de um filme narrado por Saba, que fez de sua voz mais um dos instrumentos.

A canção “2012” merece um capítulo à parte. Assim como Mac Miller com “2009” e Earl Sweatshirt com “2010”, Saba faz sua própria recapitulação de como era sua vida há 10 anos. Com um storytelling poderosíssimo e extremamente visual – que remete aos melhores momentos de CARE FOR ME –, o artista relembra sua primeira paixão no verso de abertura e na sequência reflete com delicadeza e positividade sobre a própria infância. “All these bodies droppin’, same blocks that we played tag/ For some old shit, they wanted they payback/ So we escape it all in the booth with the playback/ ‘Cause this the only place that we knew you were safe at”. Linhas suficientes que descrevem com precisão o refúgio que ele e artistas como Mick Jenkins, Smino e outros encontraram no estúdio em uma Chicago violenta. Apesar de relembrar o passado, a tocante canção nos dá um paralelo de onde o artista se encontra hoje e a importância que ele vê em nutrir uma comunidade, uma família e bons amigos. O desarme no ouvinte vem com o último refrão: “I had everything I needed, everything/ ‘Cause I had everyone I needed”. (Depois dessa coleção, não espero nada mais nada menos do que Kendrick contando da vida pré-good kid m.A.A.d (2012) city em uma música chamada “2011”).

Few Good Things é uma calorosa e grata reunião de família, mas sempre com aquele gosto agridoce na boca, especialmente ao lembrar dos sacrifícios, da luta, da resiliência e da perseverança dessa família. No final do curta-metragem que acompanha o disco, vemos um caderno com o desenho de um pássaro que olha para trás, na direção do rabo. Este desenho simboliza Sankofa (Sanko = voltar; fa = buscar, trazer), um conceito originário de um provérbio tradicional entre os povos de língua Akan da África Ocidental, em Gana, Togo e Costa do Marfim. Em Akan “se wo were fi na wosan kofa a yenki” pode ser traduzido por “não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu”. Com este conceito debaixo do braço, Saba nunca se esquece de olhar de volta para Chicago, buscando ajudar a construir um futuro que floresça mais do que seu passado.

(Few Good Things em uma faixa: “Soldier”)

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ARTISTA: Saba