Resenhas

SG Lewis – times

Disco de estreia do britânico é um estudo sobre a Disco Music realizado sob o viés soturno de singles e colaborações anteriores

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Ano: 2021
Selo: EMI
# Faixas: 10
Estilos: Disco, Eletrônica
Duração: 40'
Produção: SG Lewis

Por muito tempo, o produtor inglês SG Lewis preferiu habitar as sombras. Não como uma forma de se esconder do que estava aberto ao mundo, mas como elemento crucial de sua identidade e sonoridade. Produzindo remixes desde a época de colégio, o produtor consolidou uma espécie de sentimento “calmo e escuro”, fundindo elementos difusos, etéreos que, embora, deem certo aspecto de leveza à canção, trazem timbres voltados para o fantasmagórico e o soturno. Entre uma série de singles tímidos, a trilogia de EPs Dusk, Dark (2018) e Dawn (2019) talvez tenha sido seu produto mais celebrado até aqui, contemplando essa aparente contradição entre calmaria e obscuridade como um aspecto fundamental e confortável para SG Lewis.

Além disso, o produto inglês adquiriu parte de sua fama por conta de parcerias que tornaram seus singles tão relevantes quanto seus registros maiores. Estas faixas têm não apenas colaboradores, mas amigos do produtor, parte de um contexto da metade dos 2010: Alunageorge, Clairo, Robyn, Chanel Tres, Goldlink entre outros. Assim, SG realizava esse movimento de andar pelas beiradas escuras, porém ocupando grandes porções do mapa e estando presente em diferentes meios, apenas revelando a merecida atenção que seu jogo de luz e sombras trouxe para o meio musical.

Agora, SG Lewis parece não pensar tanto nos espaços que ocupa, mas no período que está disposto a investigar – a Disco Music. O produtor disse em entrevistas que, nos últimos anos, dedicou boa parte de seu tempo compreendendo e estudando a Disco, não apenas sob um viés das sonoridades e timbres empregados, mas também a partir de seu significado enquanto movimento cultural, incluindo, também, seu sentido escapista. Particularmente este último item mexeu com SG Lewis, que se refere ao gênero como uma possibilidade de grupos marginalizados e minoritários encontrarem um espaço para se expressar conforme suas vontades e desejos. Após tantos estudos, esta é a ideia central de seu disco de estreia times, um trabalho que funciona como laboratório de experimentação e nostalgia, além de uma possibilidade de compreensão de um gênero tão importante historicamente – e ressignificá-lo à luz de um contexto pandêmico.

Colaboração com Rhye, o disco abre com “Time”, faixa que usa de toda a melodiosidade dos arranjos de cordas para introduzir um universo rico e dançante. “Back To Earth”, por sua vez, traz a imponência do baixo em primeiro plano, marcado pelo suingue. Não poderia ser uma imersão quase acadêmica na Disco se não houvesse uma das maiores personalidades do gênero. Por isso, “One More” reserva espaço sagrado para que Nile Rodgers injete a malemolência singular de sua guitarra. “Chemicals” é talvez a faixa com mais  protagonismo para aquela estética sombria de momentos anteriores, repleta de ecos e timbres mais peculiares. Por fim, “Fall” encerra este estudo como um tipo de anexo, descolado da proposta Disco e evocando uma desaceleração do ritmo agitado até então – sem batidas, apenas com voz e um piano grandioso.

O registro trabalha com os lugares comuns da música Disco, proposta que tem se mostrado comum nos últimos anos. SG Lewis se usa daqueles momentos clássicos do gênero para evocar um sentimento nostálgico pleno: as palminhas, sintetizadores específicos, percussões classudas, linhas de baixo potentes e suingadas. Entretanto, embora isto não seja feito de forma tão intensa, o produtor não ignora completamente aquela primeira sonoridade consolidada nos EPs e singles anteriores. Há um toque mais soturno, principalmente na escolha dos timbres etéreos e sombrios. Não tanto uma escolha estética consciente – parece mais um movimento natural e esperado desta revisitação.

Ao estudar a Disco, SG Lewis imprime também seu estilo. Não porque quer experimentar, mas porque as sombras são a linguagem que ele melhor sabe manusear. Não é um álbum Disco Dark. É uma investigação deste gênero sob os termos do produtor.

(times em uma faixa: “Chemicals”)

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ARTISTA: SG Lewis

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.