Resenhas

Sia – This Is Acting

Novo álbum da cantora australiana flerta com a mesmice

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Ano: 2016
Selo: RCA
# Faixas: 12
Estilos: Pop Alternativo, Pop
Duração: 46:31
Nota: 3.0
Produção: Sia, Noah Goldstein, Jesse Shatkin

Sia, você sabe, é aquela cantora/compositora australiana que estourou a metafórica boca do balão há dois anos, com Chandeliers, canção estranha mas legal o bastante para popularizá-la pelo planeta afora. O que talvez não seja tão conhecido pelo público é que, por trás do visual estranho, das performances interessantes, existe uma dedicada compositora Pop, que tentava subir para a primeira divisão da música desde o início do milênio. Enquanto não conseguiu o sucesso de 2014, Sia teve sua maturação como fornecedora de faixas para artistas de um espectro musical tão distinto, que abrangia dos ingleses de Zero 7 a estrelas como Beyoncé. Além disso, lançou quatro álbuns que figuraram discretamente em listas de 100 mais tocados em lugares como Dinamarca ou Noruega.

Esta faceta de compositora Pop está presente por todos os cantos deste sétimo álbum, This Is Acting. Quem espera algo do exotismo de Chandelier como pedra de toque do disco, precisará passar por duas baladas mais ou menos clássicas logo de cara. Bird Set Free, que abre o disco, lançada como single promocional ainda em 2015, é canção levada ao piano, com melodia marcante, clima de crescendo e a voz de Sia, que surge solene, desesperada, explodindo no refrão, em meio a batidas marciais. É um certo padrão da música atual, não dá muito para fugir disso sem ouvir adjetivos como “velha”, “chata” ou “ultrapassada”, como Adele em seu mais recente álbum, acusada de “cantar música para gente velha”. Uma burrice, por certo. A cantora inglesa coescreveu a canção seguinte, Alive, que tinha como destino o mesmíssimo álbum, mas desistiu de usá-la no último instante. A melodia é interessante, tem aquela expectativa de que algo acontecerá para quebrar a monotia, algo que surge no refrão, com a voz de Sia preenchendo espaços e mergulhando numa dramaticidade de fim de mundo Detalhe interessante: o brasileiro Tobias Jesso Jr. também coassina a autoria da canção.

A partir daí, surge One Million Bullets, canção em midtempo, mas igualmente mergulhada em águas calmas. Lembra algo da também inglesa Dido, com um pouco mais de sangue nas veias. Move Your Body vem com destino certo, a pista de dança. Só que tal apropriação se faz com a esquisitice light que caracteriza as composições de Sia: há uma batida interessante no meio, vocais que emulam divas disco há muito perdidas e uma impressão de caos controlado. Em algum lugar do refrão a praga do “ôôô-ô-ôôô-ô”, que ajuda a exaurir a paciência de qualquer um. Outra criação à la Dido surge em Unstoppable, novamente com mais alma e certa atitude, algo que a sumida lourinha não tinha e que Sia tem com certa sobra. A melodia é banal, o arranjo é convencional, pouca empolgação por aqui. Cheap Thrills poderia ser uma canção de Rihanna e chega a exibir certa dancinha que lembra algo que poderia ser dos suecos Ace Of Base, lá de 1994. Não é ruim, não é lá essas coisas.

Reaper tem dedo de Kanye West e tem batida lenta, mas a melodia é graciosa, o clima letárgico intencional vai dando lugar ao bom uso da voz em favor do conjunto, sem desejo de sobressair-se. Detalhe bonitinho: o uso de timbres de teclado mais tradicionais no arranjo, dando uma cara de semi-reggae à canção e um clima ensolarado, que cai bem por aqui. House Of Fire, logo depois, também exibe características próprias, com batidas mais dançantes e Pop tradicionais, flertando com efeitos de música Eletrônica menos dramáticos, procurando – a exemplo da canção anterior – tentar uma caminhada no lado brilhante da vida. Footprints retorna para o terreno do drama, da quase balada, algo que o álbum já tem de sobra e que Sia, apesar de certa competência, não sabe como livrar-se de uma fórmula de arranjo/interpretação que flerta com o tédio em muitos momentos. Felizmente ela escapa do bocejo com Sweet Design, mais uma faixa que abre seus braços para a pista de dança, ainda que discreta e contida, além de exibir certa aura oitentista.

Duas mais pra fechar a conta do disco: Broken Glass, bonitinha, com pinta de sucesso menor de Eurythmics safra 1987, é apenas correta e a entediante Space Between, com a pinta de que Sia subiu no alto da montanha para jogar seu vozeirão sobre os mortais, com muita pompa e drama. A impressão que fica é que o fã recém-convertido, que achou a cantora estranha, original e novidadeira por conta do álbum anterior, pode se decepcionar com a opção feita aqui pela convenção, pela fórmula, com pouquíssimos momentos de surpresa. This Is Acting é um trabalho correto e nada mais.

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BOM PARA QUEM OUVE: Foxes, Kimbra, Regina Spektor
ARTISTA: Sia
MARCADORES: Pop, Pop Alternativo, R&B

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.