Resenhas

Skyway Man – The World Only Ends When You Die

Segundo disco do californiano é uma odisseia espiritual narrada a partir de Folk sincero e tradicional, mas com abertura para experimentações

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Ano: 2020
Selo: Mama Bird Recording Co.
# Faixas: 10
Estilos: Folk
Duração: 40'
Produção: James Wallace

A capacidade de abarcar e contar histórias certamente figura entre as mais impactantes particularidades que tornam o Folk um gênero tão universal e cativante. Desde o Folk americano mais raiz, com melodramas românticos e viagens pelas paisagens do país, até as expressões menos tradicionais e mais experimentais, como no fantástico universo de Sufjan Stevens, somos sugados para dentro destas histórias. Não apenas por conta do conteúdo e dos temas que são apresentados, mas pela forma como estes eventos são narrados, envoltos por uma sonoridade sincera e tocante. Afinal, não basta uma boa história se não há um bom contador para dar vida a ela.

É justamente esse talento que James Wallace, conhecido pela alcunha de Skyway Man, tem expressado tão bem em sua obra. O músico e produtor californiano tem uma carreira composta por uma série de EPs e um brilhante, porém tímido, disco de estreia, Seen Comin’ from a Mighty Eye (2017). Neste, um aparente Folk Americano tradicional mostra um proeminente narrador, dotado de um aspecto camaleônico que o permitia evocar diferentes personas em prol da dramaticidade da narrativa. Além disso, ao redor da célula Folk tradicional, James costuma ser extremamente preciso e cuidadoso ao incorporar outros elementos sonoros, procurando evitar excessos a todo custo, atentando-se à utilidade de cada som para compor cenários imersivos.

Mas, em 2020, esta dinâmica, aparentemente, mudou um pouco. James parece ter uma relação diferente com aquele excesso que antes evitava e o cotidiano e o mundano não são mais o bastante. Em seu novo disco, os olhos de James se viram para o extraordinário e o metafísico, compondo uma espécie de ópera cósmica do Folk. Algo entre Tommy, Jesus Christ Superstar e Xanadu.

The World Only Ends When You Die pode parecer, à primeira audição, um delírio psicodélico típico do Folk dos anos 1970. Mas o fato de ser uma obra de James Wallace nos faz dispensar essa ideia imediata e investigar mais a fundo. Estamos diante de um tipo de conto existencial, com uma personagem que, ao perceber que a realidade era intolerável, tem uma experiência pós-morte – e vai ao mundo dos mortos. A partir disso, desenvolvem-se temas complexos e existencialistas, que circundam a morte, a vida, a espiritualidade. Por fim, o personagem acaba por repensar sua existência e, assim, escapa do mundo dos mortos para o ano de 2020. Certamente, há uma influência Psicodélica aí – não apenas na sonoridade –, mas o grande barato do disco é perceber como a narrativa do Folk também serve a temas caros ao existencialismo e à filosofia, sem necessariamente soar pedante ou verborrágico. Este talvez seja o ponto em que James acertou na mosca – algo cotidiano pode gerar discussões profundas sobre a humanidade.

Para além do repertório musical, o disco foi constituído a fim de deixar a história o mais claro possível para o ouvinte. As ilustrações feitas por Kevin Hooyman e que envolvem todo o disco também acabam nos auxiliando nesta jornada. Mas o que realmente dá o tom é a forma com que cada música retrata um momento delicado da saga do protagonista – nas letras e na sonoridade. Por vezes, James capta o espírito bem americano da coisa, em levadas de Country e canções para se entoar em estradas. Em outros momentos, atravessamos o oceano em arranjos mais orquestrados, que permitem comparações com Sgt Peppers Lonely Heart ‘s Club Band. O Blues raiz dos Estados Unidos também ganha espaço entre as 10 canções do disco e talvez seja o gênero mais propício para narrar os momentos em que o protagonista tem suas epifanias, com James se entregando totalmente à sua potência vocal.

O ideal é que o disco seja ouvido como um todo, já que conta uma história fechada e completa. Porém, analisar as faixas individualmente também nos traz uma nova forma de olhar e encarar esta jornada metafísica. “Muddy Water” nos engana aos primeiros segundos, pois traz a sensação de que já vamos levantar voo para o mundo dos mortos, mas nos segura em uma lenta e hipnótica balada. “Did Ya Know Him?” tem um toque de Ob-La-Di, Ob-La-Da, ao mesmo tempo que encena uma conversa (ou confronto) com o guia espiritual do protagonista, minutos antes de “descer”. “Don’t Feel Bad About Being Alive” é o momento da epifania que faz o protagonista voltar à vida, porém é feita de maneira irônica e que pontua insistentemente as controversas de viver. Por fim, “Power” encarna o Gospel tradicional, criando a trilha sonora perfeita para que o protagonista encerre sua trajetória e retorne à realidade presente – que ironicamente é o ano conturbado de 2020.

James Wallace apresenta uma ambiciosa obra, na qual os diálogos existenciais são desnudados a partir de temas supérfluos. É como se James fosse Guimarães Rosa e The World Only Ends When You Die, seu Grande Sertão: Veredas. É a partir do mundano que se atinge a metafísica. É a partir do Folk que se atinge o divino. É a partir do cotidiano que se atinge o mais profundo de nossa existência. Aqui, James parece defender algo como um Folk Metafísico.

(The World Only Ends When You Die em uma faixa: “Did Ya Know Him?”)

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ARTISTA: Skyway Man

Autor:

Designer frustrado, julgador de capas de discos e odiador daqueles que põem o feijão antes do arroz.