Resenhas

Sleater Kinney – No Cities To Love

Novo álbum do trio esclarece a relevância do Rock em 2015

2,448 total views, no views today

Ano: 2015
Selo: Sub Pop
# Faixas: 10
Estilos: Rock, Rock Alternativo, Riot Grrrl
Duração: 32:23min
Nota: 4.5
Produção: John Goodmanson
SoundCloud: /tracks/179540343

Senhoras e senhores, apresento-lhes o Rock’n’Roll em sua versão 2015. Ele continua barulhento, feroz, engajado, tocado de forma satisfatória, ainda sem exigir o virtuosismo musical. É essencial que mantenha certa distância da Eletrônica, não por implicância, mas por ela fornecer atalhos que podem atrapalhar a maturação da coisa. Sim, Rock é sobre tempo, sobre precisar de algumas voltas em torno do Sol para acontecer. É preciso letras interessantes, que tragam reflexões mínimas sobre o que se vê durante o dia, Rock não pode ser apenas sobre pirações e noitadas, afinal de contas, estamos em 2015 e ele precisa se adaptar para continuar relevante. Essa pequena observação serve, sim, para que pessoas de menos de 20 anos possam olhar para o estilo como algo para ser levado a sério. Rock não pode ser aquela canção dos anos 1960 que seu pai gosta, tem que falar sobre você e suas agruras de ser humano vivo no planeta. E, olha, nada mais diferente do que a Terra de 2015 em relação ao que ela costumava ser há 50 anos. O grupo americano Sleater-Kinney conseguiu converter a rebeldia, a atitude e a importância do Rock em algo plausível e palatável hoje, ontem, na semana que vem e te oferece através do seu novo álbum, No Cities To Love.

Já se vão dez anos desde que o trio de Olympia, Washington (cidade de Kurt Cobain), resolveu dar um tempo. Carrie Brownstein, vocalista e guitarrista, Corin Tucker e Janet Weiss foram viver suas vidas após uma carreira que já durava dez anos e sete discos. Montaram grupos, tiveram filhos, Brownstein tornou-se estrela de TV na série Portlandia e, após o tempo necessário, voltaram com a banda. Eram mulheres diferentes, unidas por um passado em comum, no caso, a cena do Rock no Noroeste americano do início dos anos 1990. Naquela época não era possível pensar em algo que viesse de lá que não fosse derivado das bandas Grunge, mas as meninas se mantiveram ativas e produtivas num confortável e fiel underground. O que nos leva ao novíssimo álbum, No Cities To Love. São pouco mais de 30 minutos de música urbana e pensante. Não tem baixo, as meninas sempre tiveram a formação de duas guitarras e uma bateria, aceite. Além disso, o produtor dos velhos tempos, John Goodmanson, está de volta ao estúdio, o que garante conexão imediata com o ataque sonoro de dantes no quartel de Abrantes, só que totalmente imerso nos nossos dias. Sendo assim, a sonoridade que se ouve é crua, natural, não sintética, honesta e livre de aditivos. Música como um processo espontâneo ou, como se fala hoje em dia, orgânica, livre das mãos da indústria e seus mecanismos.

Ao longo das dez canções, o trio coloca em discussão vários temas. A lógica neoliberalista de ver o mundo e as pessoas através do olhar limitador do dinheiro é o que rege Price Tag, a primeira canção. Em meio a guitarras que emulam sonoridades setentistas de gente como Television e Talking Heads, elas avançam sobre Fangless, nervosa, fluida e cheia de pequenas reviravoltar baterísticas. Surface Envy chega logo após e declara intenções na angústia do verso “Throw me a rope, give me a leg, I haven’t see daylight in what must be day”. A faixa título, cheia de dinâmica dançante New Wave, mostra a decadência dos códigos de identidade, nos quais o século 21 pasteuriza comunidades numa globalização de araque, em constante gourmetização. A melhor canção do disco é A New Wave, quase histérica e capaz de proporcionar pulações infinitas nas melhores pistas de dança com cérebro de qualquer lugar minimamente antenado, mas que, no fundo, fala de amor com *No one here is taking notice, no outline will ever hold us, it’s not a new wave, it’s just you and me”.

No Anthems chega pesadona e monolítica, com instrumental cadenciado e vocais afundados nos efeitos de guitarra. Gimme Love é gritada, raivosa, em midtempo, com pequenas e controlados tiques nervosos de guitarra e bateria, abrindo passagem para a fusão dançante e apocalíptica de Bury Our Friends, com vocais unidos de Tucker e Brownstein com andamento e progressão que colocam no bolso quase tudo feito por bandas como Franz Ferdinand e The Rapture. Hey Darling é totalmente “Indie Rock 90s”, lembra formações contemporâneas como Belly e Breeders e nos leva até a urgência de Fade, a apropriada canção de encerramento, com borrões por todo o arranjo, clima de fim de noite, início de dia.

Apoiado pelo público, por lojas de discos independentes, jornalistas não comprometidos com os esquemas, Sleater-Kinney está de volta com um disco que pode ser considerado, desde já, um pequeno e simpático clássico roqueiro de sua carreira e que vai correr o mundo em turnês. O trio já está escalado para o festival Primavera Sound 2015, a ser realizado na aprazível capital catalã, Barcelona. Que se espalhe por todos os tocadores e meios de audição possíveis. Ouçam e se apaixonem.

2,449 total views, no views today

BOM PARA QUEM OUVE: The Breeders, Hole, The Kills

Autor:

Carioca, rubro-negro, jornalista e historiador. Acha que o mundo acabou no meio da década de 1990 e ninguém notou. Escreve sobre música e cultura pop em geral. É fã de música de verdade, feita por gente de verdade e acredita que as porradas da vida são essenciais para a arte.